Eleições 2026: polarização deve marcar disputa presidencial, avalia cientista político

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Em entrevista ao programa Nossa Voz, nesta sexta-feira (2), o doutor em Ciências Políticas e professor do colegiado de Ciências Sociais da Universidade Federal do Vale do São Francisco (Univasf), Marcelo Henrique Pereira, analisou o cenário do primeiro turno das eleições presidenciais de 2026. Segundo ele, as pesquisas já indicam uma disputa fortemente polarizada.

“Segundo pesquisas que saíram recentemente, o que a gente pode verificar é justamente esse fato da polarização. Nós devemos ter aí duas candidaturas de fato efetivas e competitivas, como a ciência política chama. A candidatura do atual presidente Lula, que conforme a pesquisa chega próximo aos 40% de intenção de votos, em algumas delas até passa um pouquinho.”

O professor afirmou que o principal bloco de oposição segue ligado ao bolsonarismo.

“Nós temos a candidatura do bloco, digamos assim, bolsonarista, que atualmente tem como seu representante oficial o senador Flávio Bolsonaro. Esse bloco, a depender da pesquisa, apresenta um índice entre 20% e 30% das intenções de voto.”

Segundo ele, apesar da presença de outros nomes nos levantamentos, a tendência é de consolidação desses dois campos.

“É claro que nós temos nessas pesquisas outros candidatos, mas é um tanto quanto improvável que esses candidatos se mantenham, tendo em vista que esses dois blocos estão de fato consolidados.”

Marcelo Henrique também comentou a possibilidade de mudança no nome da direita.

“Embora seja oficial o nome do Flávio Bolsonaro, é bem verdade que pode ocorrer alguma mudança. Até então se esperava o nome do governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, que é até um pouco mais competitivo. Mas, ao ser colocado o nome de Flávio Bolsonaro, é improvável que o governador também apresente seu nome. Se isso vier a mudar, será uma grande surpresa.”

Economia e fatores ideológicos

O cientista político destacou que os indicadores econômicos favorecem o governo federal, mas não garantem vitória.

“Uma variável muito importante é a econômica. O governo tem bons índices para apresentar: o país praticamente em pleno emprego, inflação controlada e crescimento econômico. Isso favorece o governo.”

Por outro lado, ele ressaltou que o voto não se define apenas pela economia.

“A escolha do eleitor não depende apenas da variável econômica. Existe um bloco muito forte contra o governo, que a gente costuma chamar de antiluísmo. Pautas morais, culturais, questões de família, gênero e religião também pesam.”

Terceira via

Sobre a possibilidade de surgimento de uma terceira via, o professor avaliou que o cenário segue desfavorável.

“A terceira via é um grande desejo de alguns setores da sociedade brasileira, como o setor financeiro e empresarial, mas a gente tem que reconhecer a realidade. Alguns nomes aparecem com 10% ou 13%, como o governador do Paraná, mas isso não o qualifica como terceira via. Ele está mais próximo do bolsonarismo. O mesmo ocorre com Tarcísio, que é claramente bolsonarista. Nós temos uma polarização estrutural no país entre lulismo e bolsonarismo. Acho muito difícil o surgimento de uma terceira via viável.”

Redes sociais e desinformação

Marcelo Henrique alertou para o impacto das redes sociais no processo eleitoral de 2026.

“O eleitor precisa ficar bastante atento para checar as informações e não se basear em uma única fonte. As pesquisas não são a verdade absoluta, são fotografias de um determinado momento. A política é dinâmica e essa eleição tende a ser uma espécie de guerra eleitoral, porque são dois blocos competitivos que vão usar todas as ferramentas disponíveis.”

Ele também destacou o papel da Justiça Eleitoral.

“Cabe à Justiça Eleitoral conter a disseminação de fake news e deturpações do processo. Será um ano de muito trabalho institucional.”

Abstenção preocupa

O professor chamou atenção para o alto índice de eleitores que se afastam do processo eleitoral.

“Mesmo com o voto obrigatório, a taxa de abstenção é alta. Há pesquisas em que cerca de 20% dizem que vão votar branco, nulo ou não votar. Isso revela um desencanto com a política e é algo preocupante, não só no Brasil, mas em várias democracias.”

Cenário em Pernambuco

Ao analisar o cenário político em Pernambuco, Marcelo Henrique avaliou que a disputa pelo governo do estado será competitiva.

“Governadores que buscam a reeleição têm recursos e vantagens institucionais. A governadora Raquel Lyra terá uma candidatura competitiva. Do outro lado, o prefeito do Recife, João Campos, apresenta um ótimo desempenho local e vem pavimentando sua candidatura há bastante tempo. Será uma eleição competitiva e, por outros motivos, também polarizada. E a disputa pelo Senado deve intensificar ainda mais as articulações políticas.”