O acordo de livre comércio entre o Mercosul e a União Europeia, negociado há mais de 25 anos, deve representar um marco histórico para a fruticultura brasileira, especialmente para o Vale do São Francisco. A expectativa é que, com a entrada em vigor do tratado, o imposto de exportação da uva para o mercado europeu seja zerado de forma imediata, ampliando a competitividade do produto brasileiro no exterior.
A avaliação é do presidente da Associação Brasileira de Produtores e Exportadores de Frutas (Abrafrutas), Guilherme Coelho, que concedeu entrevista nesta quarta-feira (14) ao programa Nossa Voz. Segundo ele, o acordo envolve dois grandes blocos econômicos, o Mercosul e a União Europeia e tem como objetivo final a eliminação gradual das tarifas de importação entre os países.
O objetivo é facilitar as trocas comerciais entre os dois blocos, que juntos representam um quarto do PIB mundial, ou seja, dos bens e serviços produzidos no planeta. Um mercado que reúne 720 milhões de consumidores, que agora verão uma redução de cerca de 90% nas tarifas alfandegárias sobre os produtos que vendem um para o outro, ao longo de quatro a quinze anos. Esse prazo pode ser ainda maior no caso de alguns produtos.
“Esse acordo começou há 25 anos e está se encerrando agora. São dois blocos de países discutindo o livre comércio. Hoje, produtos brasileiros que entram na Europa pagam imposto, assim como os produtos europeus que chegam aqui. O objetivo é que, ao longo dos anos, esses impostos sejam zerados, permitindo que ninguém mais pague para exportar entre os dois blocos”, explicou Guilherme Coelho.
No caso das frutas, o impacto varia conforme o produto. A manga, principal item exportado pelo Vale, já entra na Europa sem tarifa. Outras frutas, no entanto, ainda são taxadas, como melancia, melão, limão e uva. Para a melancia e o melão, por exemplo, a tarifa atual é de 10%, percentual que incide não apenas sobre a fruta, mas também sobre custos como frete, embalagem e refrigeração.
“Esses 10% são muito fortes, porque não é só sobre a fruta. É sobre o frete, a caixa, o frio, o caminhão. Com o acordo, esse imposto vai cair gradualmente até chegar a zero em dez anos. Já no caso da uva, o imposto será zerado imediatamente, o que é uma conquista enorme para o Vale do São Francisco”, destacou.
Guilherme Coelho ressaltou ainda que a redução das tarifas beneficia tanto grandes quanto pequenos produtores, especialmente as cooperativas da região, que já são referência mundial em organização e qualidade.
“Todo mundo sai ganhando: o grande produtor e o pequeno também. As cooperativas de uva do Vale do São Francisco são um orgulho, não existe nada parecido no mundo em termos de organização, qualidade e tamanho. Isso é algo a se comemorar”, afirmou.
Trâmite do acordo
O acordo começou a ser negociado em 1999, e o arcabouço foi finalizado 20 anos depois. Em dezembro de 2024, os dois lados comemoraram o acordo em Montevidéu.
Desde então, os dois blocos discutiam detalhes para vencer a resistência de países como a França, que tentam evitar a concorrência dos produtos agrícolas principalmente do Brasil, que chegam com mais qualidade e menor custo.
De acordo com o presidente da Abrafrutas, o acordo já passou pela revisão jurídica e foi traduzido para os 27 idiomas dos países da União Europeia. O próximo passo é a votação no Parlamento Europeu, que reúne mais de 700 deputados e funciona em 26 línguas oficiais.
“Agora o acordo vai para o Parlamento Europeu. Mesmo que dois ou três países votem contra, como a França, não tem problema, porque é uma votação por maioria. A expectativa é positiva”, disse Guilherme.
A assinatura oficial do acordo entre os blocos está prevista para este sábado (17). Encontro acontecerá em Assunção, capital paraguaia, e contará líderes sul-americanos e Ursula Von der Leyen.
Atuação internacional e novas agendas
Guilherme Coelho também relembrou a participação da Abrafrutas em missões internacionais, incluindo uma viagem a Bruxelas em 2025, integrando a delegação do governo federal.
“Nós fomos a Bruxelas para conhecer o parlamento, entender como estavam as negociações e conversar com adidos agrícolas das embaixadas brasileiras. Foi fundamental para sensibilizar as autoridades sobre a importância da abertura de mercados para a fruticultura”, explicou.
Em fevereiro, o presidente da Abrafrutas participa da maior feira de frutas do mundo, em Berlim, na Alemanha, onde o Brasil mantém um estande em parceria com a ApexBrasil. Ainda neste mês, Guilherme também acompanha uma missão presidencial à Índia e à Coreia do Sul, com foco na ampliação dos mercados para frutas brasileiras, como manga e avocado.
Exportações em alta
Durante a entrevista, Guilherme Coelho destacou que o Brasil bateu, pelo quinto ano consecutivo, recorde de exportações de frutas. Em 2024, o país exportou US$ 1,28 bilhão. Já em 2025, o valor chegou a US$ 1,451 bilhão, um crescimento de 12%. Em volume, o aumento foi de 19%.
As principais frutas exportadas foram manga, com US$ 335 milhões; melão, com US$ 231 milhões; limões e limas, com US$ 199 milhões; e uva, com US$ 158 milhões.
“Cada ano a gente cresce mais. Com a redução dos impostos, que hoje variam de 8% a 14% e vão chegar a zero, esse ganho deve impulsionar ainda mais o plantio e a geração de empregos no Vale do São Francisco”, concluiu.



