Apesar de ser uma doença antiga, a hanseníase ainda segue presente no Brasil e preocupa autoridades de saúde, especialmente no Vale do São Francisco, região considerada hiperendêmica. O alerta foi feito pela médica dermatologista Natia Machado, em entrevista nesta segunda-feira (19) ao programa Nossa Voz. Segundo a especialista, o diagnóstico precoce é fundamental para evitar sequelas e interromper a transmissão da doença, que tem tratamento gratuito e cura quando identificada a tempo.
Durante a entrevista, a médica explicou que o Brasil segue como um dos países com maior número de casos no mundo e que, na região do Vale, a incidência é ainda mais elevada, o que reforça a necessidade de informação e combate ao preconceito.
“É muito importante a gente falar sobre hanseníase, principalmente aqui no Brasil e, mais especificamente, na região do Vale do São Francisco, que é considerada uma região hiperendêmica. Infelizmente, ainda temos muitos casos. O Brasil é um país endêmico e, na nossa região, essa realidade é ainda mais preocupante. A boa notícia é que a hanseníase tem cura, desde que o diagnóstico seja feito corretamente e de forma precoce”, destacou a dermatologista.
A hanseníase é uma doença infecciosa que pode afetar a pele e os nervos, causando manchas, perda de sensibilidade e, em casos mais graves, sequelas permanentes. Natia Machado reforçou que os sinais iniciais nem sempre incluem dormência, o que faz com que muitas pessoas deixem de procurar atendimento.
“Muita gente acha que a hanseníase só aparece quando há alteração de sensibilidade, mas isso nem sempre acontece no início. Às vezes, o primeiro sinal é apenas uma manchinha, geralmente mais clara que o tom da pele, ou uma área levemente avermelhada, mais alta ou endurecida. Também pode surgir uma sensação de choque nos braços ou nas pernas, porque a doença pode atingir apenas o nervo, sem nenhuma alteração visível na pele”, explicou.
Segundo a médica, ao perceber qualquer alteração suspeita, a orientação é procurar a Unidade Básica de Saúde. Ela ressaltou que não é necessário, inicialmente, buscar um especialista.
“O primeiro local a ser procurado é o posto de saúde. Os médicos da atenção básica estão capacitados para fazer o diagnóstico e as unidades recebem os testes necessários. Na maioria dos casos, não é preciso fazer exames mais invasivos. O tratamento já pode ser iniciado ali mesmo, e as medicações são fornecidas gratuitamente pelo SUS, inclusive para quem tem plano de saúde”, afirmou.
De acordo com Natia Machado, a permanência da hanseníase no Brasil está diretamente relacionada ao diagnóstico tardio e às condições de vida de parte da população.
“O perfil mais comum dos pacientes é de pessoas que moram em casas pequenas, com muitos moradores. A transmissão ocorre pelo contato íntimo e prolongado, principalmente por meio de secreções respiratórias. Não é um contato casual que transmite a doença. Conviver com alguém que tem hanseníase não significa que você vai adoecer, e é justamente esse medo que alimenta o preconceito”, explicou.
A médica também destacou que fatores imunológicos influenciam no desenvolvimento da doença e que a vacina BCG oferece proteção parcial.
“A imunidade tem um papel importante. Pessoas com a imunidade mais baixa têm maior risco de desenvolver a hanseníase. A vacina BCG ajuda na proteção, não significa que impede totalmente a doença, mas reduz bastante o risco, especialmente em quem convive com um caso confirmado”, disse.
Entre as principais consequências do diagnóstico tardio estão as sequelas físicas e funcionais, que podem ser irreversíveis.
“Quando a doença não é tratada a tempo, ela pode se tornar incapacitante. Pode haver perda de força nos braços e nas pernas, comprometimento dos nervos e até deformidades. Existem casos em que a pessoa perde totalmente a função de um membro. Alterações na face também podem ocorrer e, quando chegam a esse estágio, infelizmente não há como reverter”, alertou a especialista.
Sobre o tratamento, Natia Machado explicou que ele varia conforme a forma da doença, mas, na região do Vale do São Francisco, geralmente é mais prolongado devido à alta endemicidade.
“O tratamento pode durar de um ano a um ano e meio, com o uso de três medicações. Aqui na região, mesmo quando há poucas lesões, a gente costuma optar pelo tratamento mais longo, porque é uma área fora da curva, com muitos casos e histórico de resistência. É um tratamento acessível, feito pelo SUS, mas que exige compromisso do paciente”, ressaltou.
A dermatologista enfatizou que, após o início do tratamento, o risco de transmissão cai drasticamente, o que reforça a importância de combater o estigma associado à doença.
“A partir da primeira dose, o risco de transmissão já diminui muito. A hanseníase tem cura, tem tratamento e tem profilaxia. O preconceito só afasta as pessoas do diagnóstico e aumenta o risco de sequelas. Uma das principais causas de deformidade é o abandono do tratamento, muitas vezes por medo, vergonha ou intolerância aos medicamentos”, explicou.
Ao final da entrevista, a médica deixou um recado para quem percebe sinais suspeitos, mas ainda hesita em procurar ajuda.
“A principal mensagem é: procure atendimento o quanto antes. O diagnóstico precoce evita a transmissão, torna o tratamento mais eficaz e previne sequelas. Não tenha medo nem vergonha. Quanto mais cedo, maiores são as chances de cura completa e de preservar a qualidade de vida”, concluiu.



