Em meio ao mês dedicado ao debate sobre os direitos das mulheres, um tema ainda pouco discutido ganhou espaço no programa Nossa Voz, nesta sexta-feira (13): o impacto do narcisismo em relações afetivas, familiares e até profissionais. A discussão contou com a participação da vereadora Cláudia Ferreira, que apresentou detalhes do projeto de lei “Narcisismo não é amor”, aprovado na Câmara Municipal.
A iniciativa busca ampliar a conscientização sobre comportamentos abusivos muitas vezes confundidos com demonstrações de cuidado ou proteção, mas que, na prática, resultam em controle emocional e violência psicológica.
Durante a entrevista, os apresentadores destacaram que o tema tem ganhado cada vez mais visibilidade na sociedade, inclusive em músicas e discussões nas redes sociais.
“Esse assunto já começou a fazer parte da vida das pessoas e até da cultura popular. A gente vê isso sendo citado em músicas e em debates nas redes sociais. Mas é importante lembrar que esse tipo de comportamento é extremamente danoso para quem convive com ele. Muitas vezes a violência psicológica passa despercebida ou é minimizada, e trazer esse debate é fundamental para que as pessoas entendam que narcisismo, como bem diz o projeto, não é amor.”
Projeto nasceu de relatos de mulheres
A vereadora explicou que a proposta surgiu a partir de histórias ouvidas em comunidades da cidade, principalmente na zona leste de Petrolina, onde ela mora. Segundo ela, muitos relatos mostram situações de controle dentro das próprias casas.
“Esse projeto veio justamente para alertar as mulheres, mas ele não é voltado apenas para elas. O narcisismo pode atingir crianças, idosos e até aparecer em outras relações, como no ambiente de trabalho. É um transtorno que envolve a questão mental e muitas pessoas passam por isso sem saber identificar. Elas sentem que estão vivendo algo errado, mas não sabem como reagir ou o que fazer. Por isso, o projeto foi construído ouvindo muitos relatos de mulheres nas comunidades. Em especial na zona leste, onde há muitas vítimas sofrendo em silêncio dentro das próprias casas.”
Controle e humilhação dentro de casa
Ao ser questionada sobre os casos que mais a impactaram, a vereadora relatou situações de controle extremo vividas por mulheres.
“O que mais chamou atenção foram justamente os maus-tratos dentro de casa. Muitas mulheres vivem situações muito difíceis, como maridos que não permitem que elas trabalhem ou que fazem comentários humilhantes, dizendo que a mulher está obesa ou maltratada. Isso vai destruindo a autoestima da pessoa e se caracteriza como abuso psicológico. Também existem casos em que o parceiro coloca os filhos contra a mulher ou tenta afastá-la da própria família. O relato que mais me sensibilizou foi o de mulheres que não podiam nem conversar com as vizinhas. Para sair e colocar o lixo na porta de casa, o marido precisava observar. Isso mostra o nível de controle que algumas pessoas exercem sobre a vida da outra.”
Conscientização nas escolas e rede de apoio
Segundo a vereadora, o projeto busca estimular ações educativas e ampliar a rede de apoio para vítimas desse tipo de abuso.
“O projeto foi aprovado na Câmara e sancionado pelo prefeito. Agora ele pode dialogar com outras iniciativas que já existem, como ações nas escolas e programas de conscientização. Às vezes não vai usar exatamente o nome ‘narcisismo não é amor’, mas o objetivo é prevenir esse tipo de comportamento e orientar as pessoas. Quando a mulher tem informação, ela sofre menos porque consegue identificar o que está acontecendo. O primeiro passo é buscar ajuda profissional, procurar um posto de saúde, pedir encaminhamento para um psicólogo. Esse acompanhamento ajuda a identificar se aquela relação tem características de abuso emocional.”
Para a vereadora, o debate sobre o tema precisa incluir também os homens, já que muitos comportamentos abusivos são reproduzidos sem reflexão.
“Quando se fala em palestra no Dia da Mulher, muitas vezes só se convidam mulheres. Mas por que não convidar também os homens para esse debate? Se na maioria das vezes as vítimas são mulheres, é importante que os homens também tenham consciência do que estão fazendo. O narcisismo não está apenas em relações com mulheres vulneráveis. Ele pode acontecer em qualquer classe social. Existem mulheres que têm estabilidade financeira, mas vivem relacionamentos extremamente infelizes por causa desse tipo de comportamento.”
A vereadora orienta que vítimas de abuso emocional procurem apoio profissional e também a rede pública de atendimento.
“O primeiro passo é pedir ajuda. Procure um posto de saúde, converse com um profissional e peça encaminhamento para um psicólogo. Esse acompanhamento é essencial para entender o que está acontecendo e encontrar caminhos para sair dessa situação.”
“Nosso gabinete também está aberto para orientar e receber relatos. O mais importante é lembrar que maus-tratos não são prova de amor. Controle, humilhação e violência emocional nunca podem ser confundidos com cuidado ou proteção.”



