As chuvas registradas no início de março agravaram uma série de problemas enfrentados há meses por moradores de Petrolina. Entre as principais queixas estão esgoto estourado, retorno de dejetos para dentro das casas, água com gosto salobro nas torneiras, vazamentos e interrupções no abastecimento. A situação tem impactado diretamente a rotina da população e levantado questionamentos sobre a eficiência do sistema de saneamento na cidade.
Em entrevista ao programa Nossa Voz, nesta terça-feira (17), o gerente regional da Compesa, Alex Chaves, atribuiu o agravamento dos problemas à falta de um sistema adequado de drenagem urbana.
“A gente se depara com um período chuvoso e, acompanhando redes sociais e blogs, vê um problema sério de falta de drenagem na cidade. Como não existe uma macrodrenagem estruturada, toda essa água da chuva, carregada com lama, brita e até asfalto, precisa escoar para algum lugar. E esse ‘algum lugar’, muitas vezes, acaba sendo a rede de esgotamento sanitário, que não foi projetada para isso. Estamos falando de toneladas de material entrando no sistema, o que compromete totalmente a operação e gera esses transtornos que a população está enfrentando”, explicou.
Segundo o gestor, o volume de resíduos arrastados pela chuva sobrecarrega a rede e exige semanas — ou até meses — de trabalho para normalizar a situação.
“Depois de eventos como esse, a gente leva semanas e até meses para conseguir voltar ao nível de atendimento que tínhamos antes, como em janeiro e fevereiro. Não é uma solução imediata, porque o sistema fica completamente carregado. Para tentar minimizar, contratamos mais equipamentos e equipes, ampliamos a operação com caminhões extras e iniciamos um formato de mutirão em bairros mais afetados, justamente para dar uma resposta mais rápida à população”, afirmou.
As ações emergenciais já estão sendo realizadas em regiões como João de Deus, Alto do Cocar, Jardim Amazonas e Cosme Damião, áreas consideradas mais críticas por estarem em pontos mais baixos da cidade.
Sistema não suporta água da chuva
Alex Chaves destacou que o sistema de esgotamento sanitário não foi projetado para receber água pluvial, o que agrava ainda mais o cenário durante períodos chuvosos.
“Existe uma confusão quando se fala em rede saturada. O nosso sistema não é misto, ele não foi feito para receber água da chuva. Se fosse, precisaríamos de tubulações com diâmetros muito maiores, algo que não é realidade na maioria das cidades do país.
Quando a água da chuva entra na rede, junto com todo esse material sólido, ela causa obstruções e sobrecarga. Ou seja, mesmo um sistema novo pode apresentar problemas se não houver drenagem adequada funcionando junto com ele”, pontuou.
O gerente reforçou que, quando drenagem, pavimentação e esgotamento funcionam de forma integrada, os impactos das chuvas são significativamente menores.
“A gente tem exemplos na cidade onde, após a implantação de drenagem junto com esgoto e pavimentação, os problemas praticamente desapareceram. Isso mostra que não adianta atuar de forma isolada. Se não houver um sistema de macrodrenagem eficiente, sempre que chover vamos enfrentar esse mesmo cenário, independentemente da idade da rede”, disse.
Responsabilidade e novo marco do saneamento
Sobre a responsabilidade pela drenagem urbana, o representante da Compesa explicou que a atribuição é municipal, mas que o tema passa a ganhar mais relevância dentro do novo marco regulatório do saneamento.
“Hoje, a drenagem é uma atribuição ligada à infraestrutura do município. Mas o novo marco do saneamento traz quatro pilares: água, esgoto, lixo e drenagem. Ainda estamos avançando mais fortemente em água e esgoto, mas a drenagem vai entrar nesse debate de forma mais estruturada. É um tema que precisa ser discutido com Estado, municípios e sociedade civil, porque impacta diretamente a eficiência de todo o sistema”, destacou.
Água salobra preocupa moradores
Outro ponto levantado por moradores é a qualidade da água, com relatos de sabor alterado e possíveis problemas de saúde. Alex Chaves reconheceu a mudança nas características, especialmente após chuvas, mas garantiu que a água está dentro dos padrões de potabilidade.
“De fato, após as chuvas, a água pode apresentar características diferentes, como sabor mais salobro, por influência de mananciais como o Riacho Vitória. Isso é perceptível para a população e gera desconforto. No entanto, todas as análises feitas seguem rigorosamente os parâmetros de potabilidade. A água é própria para consumo, embora, em alguns períodos, possa ter alteração de gosto e odor”, afirmou.
Segundo ele, estudos já indicaram que casos de doenças gastrointestinais no período chuvoso não estão necessariamente ligados apenas ao abastecimento da Compesa, mas a um conjunto de fatores ambientais.
Expectativa com nova concessão
Durante a entrevista, também foi abordada a expectativa em relação à nova concessão dos serviços de saneamento. A previsão é que o contrato seja assinado no dia 27 de março, com início da operação assistida em abril.
“A nova concessionária vai atuar junto com a Compesa inicialmente, em um período de transição. A expectativa é que, a partir dessa nova fase, projetos estruturantes avancem, incluindo soluções para áreas críticas da cidade. Questões como expansão da rede, construção de estações de tratamento e melhorias no abastecimento já estão sendo discutidas e devem fazer parte desse novo ciclo”, explicou.



