“Não existe pagar para liberar indenização”, alerta conselheira da OAB-PE sobre golpe do falso advogado

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Uma fraude que tem feito vítimas em Pernambuco e em várias regiões do país voltou a acender o alerta da Ordem dos Advogados do Brasil. Conhecido como “golpe do falso advogado”, o crime utiliza dados reais de processos judiciais para enganar clientes e arrancar dinheiro por meio de transferências via Pix, com a falsa promessa de liberação de valores.

Em entrevista ao programa Nossa Voz, nesta quarta-feira (25), a conselheira estadual da OAB-PE, Juliana Santana, explicou como a prática tem se sofisticado e por que tantas pessoas acabam sendo enganadas.

“Eu começo assim dizendo que certamente ele consegue enganar muitas pessoas porque muitas pessoas têm processos que envolvem a resolução da própria vida. Então, diante da importância daquela situação que está no Judiciário, ao menor contato de alguém prometendo resolver aquele problema, a pessoa acaba sendo levada. É nesse momento de fragilidade e expectativa que o golpe acontece, e infelizmente as pessoas passam por situações que a gente nem gostaria de imaginar”, afirmou.

Segundo ela, os criminosos conseguem acessar informações públicas dos processos e utilizam esses dados para dar aparência de legalidade à abordagem. Em alguns casos, o contato ocorre poucas horas após o protocolo da ação.

“É impressionante a rapidez. Já tivemos situação em que, cerca de uma ou duas horas depois do processo ser protocolado, o cliente recebeu mensagem com a própria procuração que tinha acabado de ser juntada aos autos. Quando a pessoa vê um documento que ela assinou, pensa imediatamente que está falando com o advogado de confiança, mas não está. O criminoso usa esses dados sensíveis justamente para ganhar credibilidade e conduzir toda a conversa até chegar ao pedido de dinheiro”, explicou.

A conselheira reforça que a principal estratégia dos golpistas é criar senso de urgência, pressionando a vítima a fazer pagamentos imediatos.

“Eles entram em contato dizendo que o valor foi liberado, que o juiz está aguardando, que é preciso pagar uma taxa naquele momento. Mas não é assim que funciona. Processos têm prazos, audiências são agendadas, nada acontece dessa forma urgente. Essa pressão é justamente para que a pessoa não pense e acabe transferindo valores, muitas vezes altos, acreditando que está resolvendo a situação”, destacou.

Juliana Santana também esclareceu uma das principais dúvidas dos clientes: a cobrança de valores para liberação de indenizações ou alvarás.

“Não existe pagar para receber indenização. O que pode acontecer são custas processuais no início do processo, e essas vêm em nome do tribunal, não de terceiros. Para liberar valores, não é regra e, quando há alguma taxa, são valores muito baixos. Esse tipo de cobrança alta, com urgência, é um dos maiores sinais de golpe. Não tem lógica você pagar milhares de reais para receber um dinheiro que já é seu”, alertou.

Outro ponto de atenção é o uso de números desconhecidos e até de tecnologias como inteligência artificial para simular voz e imagem de advogados.

“O principal alerta é o número. Se você sempre falou com seu advogado por um contato específico e aparece outro número, desconfie imediatamente. Hoje, os criminosos usam foto, logomarca, até simulam situações para parecer real. Por isso, a orientação é simples: pare, não faça pagamento e procure diretamente o profissional pelo contato oficial ou até presencialmente, se necessário”, orientou.

A OAB também disponibiliza ferramentas para ajudar na verificação da identidade profissional, como a plataforma ConfirmADV, mas, segundo a conselheira, a atenção ao básico ainda é a melhor defesa.

“Claro que a plataforma é importante para confirmar se o advogado está regularmente inscrito. Mas, muitas vezes, o mais simples resolve: observar o número, desconfiar da urgência e não fazer pagamentos sem confirmação. Se algo parecer estranho, interrompa o contato e procure seu advogado pelos canais oficiais”, afirmou.

Mesmo com campanhas e ações institucionais, o número de vítimas ainda preocupa. Há registros de prejuízos que variam de poucos milhares a valores muito mais altos.

“É uma situação muito grave. Temos casos de pessoas que perderam de três mil a quarenta mil reais. Muitas fazem empréstimos acreditando que vão receber uma indenização maior. É preciso reforçar: desconfie sempre. Se você tem um valor a receber, por que teria que pagar tanto para liberar esse dinheiro? Isso não existe. O caminho é parar, verificar e só então tomar qualquer decisão”, concluiu.

O que fazer se cair no golpe

A orientação é agir rapidamente para tentar reduzir os prejuízos.

“Percebeu que fez a transferência? O primeiro passo é fazer o boletim de ocorrência, denunciar o número, entrar em contato com o banco imediatamente e, se necessário, buscar o Judiciário. Quanto mais rápido agir, maiores são as chances de tentar recuperar o valor, embora a gente saiba que, muitas vezes, o dinheiro é retirado da conta quase que instantaneamente”, explicou Juliana Santana.

A OAB-PE informou que segue em articulação com a Secretaria de Defesa Social e a Polícia Civil para intensificar o combate ao crime, enquanto reforça campanhas de conscientização para evitar novas vítimas.