Três deputados da oposição protocolaram denúncia contra a vice-governadora por causa do caso envolvendo hospital de Garanhuns administrado pelo marido dela; Estado contesta acusações, cita decisão do TCE e afirma que auditoria encontrou inconsistências em 1,4% do valor analisado
O pedido de impeachment apresentado por três deputados estaduais do PSB contra a vice-governadora de Pernambuco, Priscila Krause (PSD), ganhou reação enfática do Governo do Estado nesta quinta-feira (20). Em nota, a gestão de Raquel Lyra classificou a iniciativa como de “caráter político-eleitoral”, afirmou que as acusações “não correspondem aos fatos” e disse que seguirá prestando todos os esclarecimentos necessários.
A representação foi protocolada na Assembleia Legislativa de Pernambuco (Alepe) pelos deputados Rodrigo Farias, Sileno Guedes e Romero Albuquerque, todos do PSB, partido do candidato ao Governo do Estado João Campos e principal adversário de Raquel Lyra na eleição deste ano.
Os parlamentares atribuem à vice-governadora possível crime de responsabilidade no caso envolvendo a Casa de Saúde e Maternidade Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, em Garanhuns, que tem como sócio-proprietário Jorge Branco Neto, marido de Priscila Krause. O pedido também envolve a secretária estadual de Saúde, Zilda Cavalcanti.
Segundo os deputados, a denúncia foi motivada, entre outros pontos, por auditoria do Departamento Nacional de Auditoria do Sistema Único de Saúde (DenaSUS), que apontou um prejuízo de R$ 905.233,95 em recursos do SUS relativos a serviços analisados entre janeiro de 2023 e julho de 2025.
Os parlamentares sustentam ainda que Priscila teria praticado atos relacionados ao orçamento da Saúde em períodos nos quais exerceu interinamente o cargo de governadora. Segundo a oposição, cerca de R$ 200 milhões em recursos para a área passaram por atos assinados pela vice-governadora, enquanto o hospital administrado pelo marido integra a rede de prestadores do Estado.
“O nosso objetivo é que tudo seja devidamente apurado como prevê a lei, diante de indícios evidentes de graves irregularidades”, afirmaram Sileno Guedes, Rodrigo Farias e Romero Albuquerque em nota conjunta.
O Governo do Estado, no entanto, rebateu diretamente a interpretação apresentada pela oposição.
Na nota encaminhada após o protocolo da denúncia, a gestão estadual destacou inicialmente que Priscila Krause não faz parte do quadro societário da Casa de Saúde e ressaltou que a unidade mantém relação contratual com o poder público há décadas.
“O Governo de Pernambuco afirma que as acusações não correspondem aos fatos e que o pedido protocolado por três deputados de oposição na Assembleia Legislativa tem caráter político-eleitoral. O Governo ainda esclarece que a vice-governadora Priscila Krause não integra o quadro societário da Casa de Saúde, que presta serviços complementares ao estado há 55 anos, ao longo de 16 governadores”, diz a nota.
A gestão estadual também apresentou uma leitura diferente dos números da auditoria do DenaSUS. De acordo com o governo, as inconsistências documentais apontadas representam 1,4% do montante analisado.
O Estado destacou ainda especificamente os dados relacionados à hemodiálise.
“O relatório apontou inconsistências documentais correspondentes a 1,4% do montante analisado. Sendo certo que, das cerca de 150 mil sessões de hemodiálise analisadas uma a uma, o parecer contesta a documentação de apenas 90, o equivalente a 0,06% do total”, afirmou.
A auditoria federal calculou o possível prejuízo em R$ 905,2 mil e propôs a devolução dos recursos ao Fundo Nacional de Saúde. Desse total, aproximadamente R$ 897,2 mil estão relacionados a procedimentos assistenciais cuja realização, segundo os auditores, não teria sido comprovada de maneira considerada suficiente nos documentos avaliados. Outros R$ 7.980 estão relacionados a recursos do Piso Nacional da Enfermagem.
Durante o processo de fiscalização, tanto a Secretaria Estadual de Saúde quanto o hospital apresentaram justificativas. Parte delas foi aceita pelo DenaSUS, o que resultou na revisão de valores inicialmente questionados. Mesmo assim, o órgão manteve apontamentos e recomendou mecanismos formais para prevenção e gerenciamento de potenciais conflitos de interesse.
O Governo também trouxe para a defesa uma análise anterior do Tribunal de Contas do Estado de Pernambuco (TCE-PE).
Segundo a nota, o TCE já havia analisado o caso em 2024 e afastado a hipótese de irregularidade nas contratações questionadas.
O Estado reproduziu trecho da manifestação do Tribunal segundo o qual “os fatos não indicam a concretização das referidas hipóteses de vedação à contratação”.
A nota acrescenta que, conforme o mesmo parecer, as contratações entre o Estado e a unidade hospitalar não começaram na atual gestão.
“As contratações questionadas pela Alepe não se tratam de novidades, já tendo sido realizadas, por mais de uma vez, entre o Estado e a Casa de Saúde, inclusive durante o mandato de outra gestão, nos quais foram envolvidas cifras similares às contestadas”, afirma o governo, citando o entendimento do TCE.
A Secretaria Estadual de Saúde informou ainda que recebeu o relatório final do DenaSUS e está adotando os encaminhamentos previstos juridicamente, “da mesma forma que realiza para qualquer outro prestador da secretaria”. A pasta já havia informado que pretende buscar judicialmente a revisão do resultado final da auditoria.
Apesar do peso político do protocolo, a apresentação da denúncia não significa que um processo de impeachment já tenha sido aberto, nem representa reconhecimento de crime de responsabilidade.
Pelas regras da Assembleia Legislativa, a denúncia precisa passar pelo Plenário. Para ser admitida, são necessários votos de dois terços dos 49 deputados estaduais, ou seja, 33 parlamentares.
Somente se esse número for alcançado haverá avanço para a etapa seguinte, com formação do tribunal responsável pelo julgamento.
O episódio ocorre em plena campanha eleitoral e amplia o embate entre governo e oposição na Alepe. De um lado, deputados do PSB afirmam existir elementos suficientes para que a conduta da vice-governadora e da secretária de Saúde seja investigada. Do outro, o Governo de Pernambuco sustenta que os fatos estão sendo tratados pelos órgãos competentes e atribui ao pedido uma motivação eleitoral.
Ao concluir a nota, a gestão de Raquel Lyra reafirmou: “O Governo de Pernambuco reafirma seu compromisso com a transparência e seguirá prestando todos os esclarecimentos necessários.”



