Artigo: A imparcialidade é apenas um mito, por Ângelo Castelo Branco

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Em tempos de intensa polarização e de crescente desconfiança sobre as instituições, a discussão sobre imparcialidade, especialmente no âmbito do Judiciário, volta ao centro do debate público. Até que ponto decisões humanas, ainda que revestidas de técnica e formalismo, conseguem se manter imunes a vínculos afetivos, interesses pessoais e relações familiares? Partindo de um clássico experimento da psicologia moral, o artigo do jornalista e escritor, Ângelo Castelo Branco, propõe uma reflexão filosófica sobre os limites da neutralidade, convidando o leitor a pensar se a imparcialidade é, de fato, um princípio plenamente alcançável ou apenas um ideal permanentemente tensionado pela condição humana.

  • A imparcialidade é apenas um mito
  • Por Angelo Castelo Branco

Na literatura da psicologia moral, o conhecido dilema do vagão expõe o limite da imparcialidade: diante de uma manivela que define se um trem seguirá para um trilho onde morrerão cinco pessoas ou para outro onde morrerá apenas uma.

A lógica utilitarista conduz à escolha do menor dano; porém, essa racionalidade vacila quando a única vítima potencial passa a ser alguém do círculo íntimo de quem decide, revelando que a neutralidade é frequentemente condicionada pelo afeto e pelo interesse pessoal.

É sob essa chave filosófica — e não como afirmação fática — que parte do debate público tem enquadrado episódios recentes envolvendo ministros do Supremo Tribunal Federal, nos quais se discute possível conflito de interesses decorrente de vínculos familiares com agentes privados sob escrutínio, suscitando a pergunta central do dilema:

A manivela da decisão permanece no trilho da impessoalidade quando o resultado toca a própria família, ou a imparcialidade, mais uma vez, mostra-se um ideal difícil de sustentar na prática?

(Ângelo Castelo Branco é jornalista, advogado e escritor, membro da Academia Pernambucana de Letras. Escreve sobre política, aspectos socioeconômicos e cultura)