Poucos nomes da história política de Petrolina atravessam tantas décadas com o mesmo respeito que Diniz de Sá Cavalcanti. Para historiadores, lideranças locais e boa parte da população, a definição se repete quase como consenso: Diniz foi um homem à frente do seu tempo. Não apenas pelo que realizou, mas pela capacidade rara de enxergar, décadas antes, as necessidades estruturais que permitiriam à cidade deixar de ser passagem e se tornar protagonista no Sertão.
Sua gestão como prefeito, entre 1977 e 1982, coincidiu com um momento decisivo para o Vale do São Francisco. O avanço da irrigação, impulsionado após a grande seca de 1976, atraiu trabalhadores de várias regiões do Nordeste. Diniz compreendeu que aquele fluxo humano exigia respostas urgentes do poder público. Em entrevista concedida em 2019, ele relembrou que, diante da formação de barracos e ocupações precárias, decidiu enfrentar o problema de forma direta: “Primeiro acabamos com as favelas”, afirmou. A criação do bairro José e Maria, com mil lotes em área antes usada como depósito de lixo, simbolizou uma política urbana que aliava acolhimento social, planejamento e dignidade.
Esse olhar estruturante se estendeu à habitação popular. Durante sua gestão, terrenos foram doados para a implantação de conjuntos habitacionais que dariam origem às COHABs 1, 2, 3, 4, 5 e 6, integrando áreas periféricas ao tecido urbano em expansão. Era uma visão que entendia a cidade como organismo vivo, que precisava crescer de forma ordenada para evitar desigualdades futuras.
Mas talvez o legado mais duradouro de Diniz Cavalcanti esteja na educação. Em uma época em que o ensino superior era privilégio distante para jovens do Sertão, ele apostou na consolidação da Faculdade de Petrolina. A inauguração da sede própria da FACAPE, em 1981, não foi apenas uma obra física, mas um gesto político de longo alcance. A instituição se tornaria base para que, anos depois, Petrolina atraísse a UNIVASF e se transformasse em polo universitário regional, recebendo estudantes de todo o Brasil.
Antes mesmo da vida pública, Diniz já demonstrava visão empreendedora. Fundador de empresas de transporte como a Joalina e a Transnova, compreendeu cedo que logística e mobilidade seriam fundamentais para o desenvolvimento econômico do Vale. Essa experiência se refletiu na administração municipal, marcada por obras consideradas ousadas para a época, como o primeiro viaduto da cidade, o Viaduto dos Barranqueiros, símbolo de modernização urbana no final da década de 1970.
Outro ponto constantemente lembrado nas homenagens é sua reputação de “mão limpa”. A expressão, rara e poderosa no vocabulário político brasileiro, sintetiza uma trajetória sem envolvimento em escândalos de corrupção, mesmo após décadas em cargos públicos. Para aliados e adversários, Diniz não “sujou as mãos” com o dinheiro público. Essa integridade lhe permitiu transitar entre diferentes grupos políticos com respeito, autoridade moral e capacidade de diálogo, um ativo que se tornaria ainda mais evidente durante seus três mandatos como deputado estadual, entre 1991 e 2003.
Na Assembleia Legislativa de Pernambuco, Diniz atuou como voz firme do Sertão. Defendeu a descentralização do desenvolvimento, articulou investimentos em infraestrutura hídrica e irrigação e lutou por recursos para saúde e educação profissionalizante no interior. Sua diplomacia política, baseada mais na conversa do que no confronto, facilitou a aprovação de projetos estratégicos para Petrolina, independentemente do governo estadual de plantão.
A cidade que hoje se orgulha do título de “Califórnia Brasileira”, com aeroporto entre os que mais exportam frutas no país e população que supera a de Caruaru em levantamentos recentes do IBGE, carrega marcas profundas das escolhas feitas décadas atrás. Diniz Cavalcanti é visto como o elo entre a Petrolina tradicional e a metrópole moderna, o gestor que preparou o terreno urbano, social e educacional para o crescimento acelerado que viria depois.
Seu falecimento, ocorrido hoje, 29 de janeiro de 2026, provocou uma onda de homenagens que reafirmaram esse reconhecimento coletivo. Mais do que lembrar obras ou cargos, Petrolina relembrou um estilo de fazer política guiado por planejamento, ética e compromisso público. Em tempos de imediatismo, a história de Diniz Cavalcanti permanece como lembrança incômoda e necessária: pensar o futuro é, muitas vezes, o maior ato de coragem de um gestor.



