Os resultados do Enade e do Enamed reacenderam o debate sobre a qualidade da formação médica no país, especialmente em cursos da rede privada. O tema ganhou destaque após a divulgação das notas de instituições do Vale do São Francisco e de outras regiões.
Em entrevista ao programa Nossa Voz, nesta sexta-feira (23), o médico e ex-prefeito de Petrolina, Júlio Lóssio, classificou os dados como um alerta para a saúde pública e apontou a falta de estrutura prática como o principal problema.
“O resultado da Medicina mostra algo que eu já venho alertando há bastante tempo. Muitos cursos funcionam muito mais no modelo teórico, em sala de aula, e muito menos com atividades práticas. As instituições que apresentaram melhores notas têm como base do curso um hospital, um hospital-escola, e isso faz toda a diferença na formação do médico.”
Segundo ele, a ausência de vivência prática compromete diretamente a segurança dos pacientes e a atuação profissional.
“O médico precisa, evidentemente, de formação teórica, mas precisa ter campo de treinamento desde cedo, atender pacientes, lidar com urgências. Quando isso não acontece, esse profissional vai ter muita dificuldade, e quem paga a conta é o paciente.”
Júlio Lóssio também chamou atenção para o impacto financeiro enfrentado por estudantes e famílias.
“Nós estamos falando de jovens que passam seis anos na faculdade pagando caro. No final, muitos descobrem que não têm as competências básicas para exercer a Medicina. A culpa não é do estudante, é de quem ensina e de quem fiscaliza.”
Sobre o exame de proficiência médica, o ex-prefeito avaliou a medida como insuficiente para resolver o problema estrutural.
“O exame de proficiência é paliativo, porque ele acontece depois da formação. O ideal é atuar antes e durante o curso, corrigindo o principal problema, que é o campo de estágio.”
Como gestor público, ele reconheceu a dificuldade de estados e municípios em avaliar médicos apenas pelo currículo, mas defendeu o uso de avaliações oficiais como referência.
“Nós não temos como medir a capacidade profissional só pelo currículo. Por isso, é importante que essas avaliações do governo federal sirvam de base para futuras contratações.”
Ele concluiu demonstrando preocupação com os estudantes.
“O que mais me preocupa é ver milhares de jovens sendo enganados, pagando caro e não recebendo a formação para a qual estão pagando. Isso é grave para eles e para a população.”



