A violência contra a mulher e a necessidade de fortalecimento das políticas públicas de proteção foram tema de debate nesta quinta-feira (5) durante entrevista ao programa Nossa Voz, em Petrolina, no Sertão de Pernambuco. Participaram da conversa a assessora especial de políticas públicas para mulheres do município, Lucinha Mota, e a escritora Socorro Lacerda, integrante da União Brasileira de Mulheres.
A entrevista ocorreu em meio à repercussão nacional de um caso recente de estupro coletivo envolvendo uma adolescente. Durante o programa, as convidadas destacaram a importância da denúncia, da informação e da atuação do poder público e da sociedade no enfrentamento à violência.
Lucinha Mota abriu a conversa lembrando da trajetória de luta de mulheres que atuam no ativismo em defesa de direitos e falou sobre o impacto emocional provocado pelos casos recentes de violência.
“Nós já nos encontramos em outras entrevistas, mas eu fico muito feliz de estar sempre ao seu lado e ouvir suas histórias. Sua memória de ativismo é muito forte para a minha vida. Assim como Socorro e tantas outras mulheres aqui em Petrolina, no Sertão, em Pernambuco e no Nordeste, que fazem esse trabalho para garantir direitos para nós, mulheres e meninas. Muitas vezes, a gente luta hoje para que outras gerações possam viver com mais dignidade no futuro.”
Socorro também destacou a importância de discutir o problema de forma estrutural e criticou a lógica patriarcal que, segundo ela, sustenta a violência de gênero.
“Nós precisamos denunciar uma estrutura que se consolidou na sociedade e que está presente no mundo inteiro: o patriarcado. É uma lógica que tira vidas, que objetifica os corpos das mulheres, que invisibiliza o trabalho feminino e naturaliza a violência. Não basta apenas noticiar os casos de estupro ou feminicídio; é preciso discutir a raiz do problema e trabalhar para desmontar essa estrutura.”
A militante acrescentou que a sociedade precisa reconhecer o problema e que a participação dos homens também é necessária no enfrentamento da violência.
“Os homens também precisam se posicionar. Aqueles que estão em silêncio precisam ter vergonha e se manifestar contra os agressores. Não é uma luta que será conduzida por eles, mas é fundamental que também assumam responsabilidade e não sejam coniventes com a violência.”
Durante a entrevista, Socorro também chamou atenção para os motivos que levam muitas mulheres a permanecerem em relações abusivas.
“As pesquisas mostram que a dependência emocional é uma das principais razões. Muitas mulheres acreditam que o agressor vai mudar. Mas o ciclo da violência se repete. Primeiro vem o grito, depois o tapa, depois a agressão física mais grave. É um processo que pode terminar em morte. Por isso a gente diz: não acredite que ele vai mudar. Saia dessa relação enquanto há tempo.”
Lucinha Mota reforçou que a dependência emocional também aparece nos registros institucionais de atendimento às vítimas no município.
“Entre as mulheres atendidas pela Secretaria Executiva da Mulher, identificamos que cerca de 30% apresentam dependência emocional do agressor. Muitas não se reconhecem dentro do ciclo de violência, principalmente por falta de informação. Mesmo com redes sociais e acesso à informação, ainda existe um grande desconhecimento sobre os sinais da violência.”
Segundo ela, a prefeitura tem investido em ações preventivas, principalmente por meio da educação e do trabalho nas comunidades.
“A nossa prioridade tem sido fortalecer a prevenção através da educação. Temos ido às escolas, participado de formações pedagógicas, dialogado com gestores, estudantes e famílias. A prefeitura de Petrolina aderiu a campanhas nacionais e tem levado informação também para comunidades de difícil acesso, como a Ilha do Massangano, onde já estivemos duas vezes realizando ações de orientação e acolhimento.”
Lucinha também destacou a estrutura de atendimento oferecida pelo município às vítimas de violência.
“Na Secretaria Executiva da Mulher, a vítima encontra uma rede de atendimento com advogada, psicóloga, assistente social e até psiquiatra. A mulher que sofreu violência não enfrenta fila para atendimento na área de saúde. Nosso objetivo é garantir acolhimento imediato e acompanhamento para que ela consiga romper o ciclo de violência.”
Outro ponto abordado durante a entrevista foi a atuação das forças de segurança. Lucinha citou a participação do município em uma ação integrada com órgãos estaduais e federais.
“Participamos da Operação Mulher, realizada em parceria com o Governo Federal, Governo do Estado e forças policiais. Só em Petrolina, nos últimos dois dias, foram cumpridos mais de 40 mandados de busca, apreensão e prisão. Isso mostra que há avanços, mas também revela a dimensão do problema que precisamos enfrentar.”
Socorro Lacerda também levantou críticas à estrutura do sistema judiciário, que segundo ela ainda apresenta traços de machismo e demora no cumprimento de medidas protetivas.
“Nós questionamos a demora no sistema de justiça. A lei prevê prazos, mas muitas vezes a proteção não chega a tempo. Defendemos a criação do Núcleo Integral de Oficiais de Justiça, o NIOP, que permitiria agilizar a entrega de notificações e medidas protetivas aos agressores. Se uma mulher procura o poder público e diz que não quer aquele agressor perto dela, essa proteção precisa ser imediata.”
Encerrando a entrevista, Lucinha reforçou que a denúncia e o acesso às políticas públicas são fundamentais para salvar vidas.
“Quando falamos de violência contra a mulher, não estamos tratando apenas de números ou estatísticas. Estamos falando de vidas. Cada ligação que recebemos, cada caso que chega até nós representa uma mulher que precisa de proteção e de acolhimento. Por isso seguimos trabalhando para que nenhuma vítima fique sem atendimento e para que cada vez mais mulheres tenham coragem de denunciar.”



