Há um ano, em 2 de janeiro de 2025, o Vale do São Francisco perdia uma de suas figuras mais marcantes da comunicação. Morreu aos 91 anos Inah Torres Moura, referência do jornalismo social, voz histórica do rádio e personagem central da memória cultural de Petrolina e Juazeiro.
Para marcar a data, o professor universitário aposentado e memorialista Rinaldo Remígio escreveu um texto em homenagem a Inah Torres Moura, relembrando a trajetória pessoal, profissional e humana da comunicadora, cuja história se confunde com a própria construção da imprensa no Vale do São Francisco.
Leia abaixo, na íntegra, o texto assinado por Rinaldo Remígio
Há pessoas que não passam pela vida — permanecem. Permanecem na memória coletiva, nos hábitos, nos rituais cotidianos e, sobretudo, na saudade. Assim foi Inah Torres Moura, caruaruense de origem, petrolinense por escolha e destino, cuja trajetória pessoal, profissional e social se confunde com a própria história da comunicação no Vale do São Francisco.
Natural de Caruaru, nascida em 31 de maio de 1933, Inah carregava no sotaque, no gesto e na elegância a marca da Capital do Agreste. Chegou a Petrolina em 1971, acompanhando o esposo Nelson Moura — comerciante próspero, proprietário da tradicional Sapataria Chance — e aqui fincou raízes definitivas. Tornou-se parte da paisagem humana da cidade, referência incontornável da vida social, cultural e jornalística.
Tive o privilégio de conhecê-la quando fixei residência em Petrolina, ao lado de outros conterrâneos de Caruaru, como Manoel Vilmar, Eribaldo Bezerra e suas respectivas famílias. Sempre que nos encontrávamos, era uma alegria irradiante. Dona Inah tinha o dom raro de transformar o instante em afeto: tratava-me carinhosamente por “Meu Reitor” e, por diversas vezes, fazia questão de registrar, com orgulho e ternura: “tenho muita alegria em ver à frente da Facape meu conterrâneo Remígio”. Era sempre sorridente, generosa nas palavras e elegante nos gestos. Em momento algum a vi triste ou reclamando de qualquer circunstância. São essas — e tantas outras — lembranças que guardamos de Dona Inah: a presença luminosa, a cordialidade sincera e a capacidade de espalhar alegria por onde passava, marcas indeléveis de quem fez da vida um exercício diário de elegância e humanidade.
Sua vocação para a comunicação vinha de berço. Filha de João Luiz Torres, cronista dos jornais de Caruaru, irmã de Luiz Torres — primeiro gerente da Rádio Difusora de Caruaru — e do caçula José Bezerra Torres, radialista com atuação em várias emissoras da capital pernambucana, Inah respirou imprensa desde cedo. Aos 13 anos já trabalhava no escritório de contabilidade do irmão Luís; aos 15, circulava pelos corredores da Rádio Difusora; aos 18, assumia cargo administrativo na Coletoria Estadual de Caruaru.
A carreira pública seguiu sólida e respeitada. Em 1971, já em Petrolina, ingressou na Coletoria Estadual local, onde permaneceu até se aposentar como Auditora Fiscal do Estado de Pernambuco, sem jamais abandonar o compromisso ético e o apreço pela coisa pública.
Mas foi no Jornalismo Social — como ela própria denominava — que Inah construiu um legado singular. Pioneira no colunismo social da região, estreou no extinto Jornal O Pharol, a convite do saudoso João Ferreira Gomes, o “Seu Joãozinho”. Escreveu para o Jornal do Comércio e para o Diário de Pernambuco, sempre valorizando o sertão do Vale do São Francisco, seus personagens, costumes e o cotidiano regional. Colaborou ainda com A Gazeta do São Francisco, de Petrolina, e com o jornal de Juazeiro.
Durante vinte anos, editou a revista Com Você, verdadeiro painel social, econômico e político do Vale do São Francisco. Editou também o livro Petrolina VIP e assinou textos, apresentações e prefácios para revistas, livros e publicações diversas. A convite do jornalista Arijaldo Carvalho, escreveu na revista recifense Movimento, levando ao público da capital um retrato fiel da vida social sertaneja.
No rádio, consolidou-se como referência absoluta. Convidada por Carlos Augusto Amariz Gomes, primeiro gerente da Rádio Grande Rio AM, assumiu o programa Em Sociedade, que, sob sua produção e apresentação, permaneceu 38 anos ininterruptos no ar, no prefixo 680 AM. Ouvi-la era, sem dúvida, ficar por dentro das notícias e das “fofocas” sociais, sempre narradas com ética, humor fino e profundo respeito às pessoas.
Mais tarde, passou a integrar, às terças-feiras, o programa Perfil, apresentado pela filha Nélia Lino, na Grande Rio FM, levando crônicas e mensagens de sua autoria, produzindo momentos de paz, reflexão e serenidade para os ouvintes.
Na área social, foi protagonista de iniciativas que marcaram época. Foi precursora nas festas de premiação com a consagrada Festa dos Destaques, que movimentou a cena social do Vale por três décadas. Esteve à frente do Interclubes, promovendo o concurso Miss Interclubes, e idealizou o elegante Baile dos 10 Mais Elegantes, reunindo a classe masculina em noites de glamour, convivência e distinção.
O reconhecimento veio em vida, como deve ser. Inah e o esposo Nelson Moura receberam o Título de Cidadãos Petrolinenses; ela foi consagrada Grande Dama da Imprensa do Vale do São Francisco, tornou-se objeto de tese de doutorado, personagem de documentário sobre a imprensa regional e recebeu inúmeras condecorações e menções honrosas de instituições civis e militares, além de atuar de forma destacada na Associação de Imprensa de Pernambuco, no Sindicato dos Radialistas e na ABRAJET.
Mãe de Ielson, Ilson (in memoriam), Norma e Nélia; avó de nove netos; bisavó orgulhosa de oito bisnetos, Inah Torres Moura faleceu em 2 de janeiro de 2025, deixando uma lacuna irreparável na radiocomunicação do Vale do São Francisco. Fica, porém, a herança imaterial: a elegância da palavra, o compromisso com a verdade, o respeito às pessoas e o amor profundo por esta terra.
Dona Inah não apenas anunciou a história e a vida social do Vale do São Francisco — ela faz parte da história, a escreveu com elegância, deu-lhe voz, ritmo e memória, tornando-se eterna na saudade de uma região inteira.



