Por: Zacarias Ribeiro Filho
A história contemporânea mostra que iniciativas políticas marcadas por forte concentração de poder e decisões estratégicas centralizadas tendem a gerar debates legítimos sobre limites, responsabilidades e impactos de longo prazo. Nesse contexto, a criação de um Conselho da Paz no entorno político de Donald Trump suscita reflexõesO Conselho da Paz e o teste da responsabilidade civilizatória que vão além da diplomacia e alcançam o campo da responsabilidade civilizatória.
A busca pela paz é um valor universal. Contudo, paz duradoura não se constrói apenas com força institucional, supremacia econômica ou segurança energética. Ela depende também de fatores estruturais como estabilidade ambiental, segurança climática e acesso equilibrado aos recursos naturais. Ignorar essas dimensões reduz a paz a um conceito restrito e, muitas vezes, frágil.
O apoio reiterado à expansão dos combustíveis fósseis, em um cenário global de transição energética e de evidências científicas consolidadas sobre a crise climática, evidencia uma tensão importante. Mudanças climáticas já impactam economias, ampliam desigualdades e intensificam conflitos por água, terra e alimentos. Trata-se, portanto, de um tema que ultrapassa o debate ambiental e alcança a agenda da segurança e da estabilidade internacional.
É nesse ponto que se insere o conceito de Responsabilidade Civilizatória.
Responsabilidade civilizatória refere-se ao dever ético de líderes e sociedades de reconhecer que certos bens — como o clima, a biodiversidade, a água e os solos produtivos — não pertencem exclusivamente a governos, mercados ou gerações atuais. São bens comuns da humanidade, cuja degradação compromete o direito das futuras gerações a um mundo viável.
Esse entendimento não é apenas fruto do pensamento contemporâneo. Ele encontra respaldo em fundamentos culturais e espirituais antigos. Em Gênesis 1 e 2, o ser humano recebe a Terra não como proprietário absoluto, mas como guardião, com a incumbência de “cultivar e guardar” (Gn 2:15). Trata-se de uma síntese notável entre produção e preservação, desenvolvimento e cuidado.
Cultivar pressupõe inovação, trabalho e prosperidade.
Guardar pressupõe limites, responsabilidade e visão de continuidade.
Quando políticas públicas privilegiam modelos energéticos intensivos em impacto ambiental, sem incorporar adequadamente essas duas dimensões, cria-se um desequilíbrio. Não se trata apenas de uma escolha econômica ou ideológica, mas de uma decisão com implicações civilizatórias.
Um conselho que se proponha a promover a paz precisa considerar que não há estabilidade duradoura em um planeta ambientalmente pressionado. A degradação ambiental mina a segurança alimentar, aprofunda desigualdades e fragiliza instituições, especialmente em regiões já vulneráveis.
Governar no século XXI exige integrar ciência, ética, economia e responsabilidade intergeracional. Desenvolvimento sustentável não é obstáculo ao crescimento, mas condição para sua permanência. A verdadeira liderança é aquela capaz de conciliar poder com propósito e presente com futuro.
Ao final, a história tende a avaliar lideranças não pelo número de conselhos criados ou pela força que concentraram, mas pelo legado que deixaram. Paz, sustentabilidade e responsabilidade civilizatória não são agendas concorrentes, mas dimensões complementares de um mesmo desafio global.
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¹Engenheiro Agrônomo,
Mestre em Dinâmica de Desenvolvimento do Semiárido
MBA em ESG
Consultor ESG da ABRAFRUTAS
Diretor: ESG Planning Consultoria



