Operação Vassalos divide Câmara de Petrolina: Diogo Hoffmann diz que investigação faz parte do escrutínio público; Gilmar Santos aponta falhas e suspeitas em contratos

0

Em entrevista ao programa Nossa Voz, vereadores da base governista e da oposição comentaram os desdobramentos da Operação Vassalos, deflagrada pela Polícia Federal. A investigação apura suspeitas de fraudes em licitações, corrupção e lavagem de dinheiro envolvendo recursos de emendas parlamentares destinados a Petrolina, inclusive por meio da Companhia de Desenvolvimento dos Vales do São Francisco e do Parnaíba (Codevasf).

A decisão que autorizou o cumprimento de 42 mandados de busca e apreensão, incluindo na Prefeitura de Petrolina, é do ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal (STF). Entre os alvos estão o ex-senador Fernando Bezerra Coelho, o deputado federal Fernando Filho e o ex-prefeito de Petrolina Miguel Coelho.

Segundo a decisão, a empreiteira Liga Engenharia Ltda. teria firmado 22 contratos com a prefeitura a partir de 2017, somando cerca de R$ 190,5 milhões em empenhos, dos quais aproximadamente R$ 189,7 milhões já teriam sido pagos. Parte desses recursos teria origem em convênios com a Codevasf.

“Estamos tratando de uma investigação”, diz líder da situação

O vereador Diogo Hoffmann, líder da bancada governista na Câmara Municipal, iniciou a fala destacando que agentes públicos estão sujeitos à fiscalização permanente.

“Todo homem e toda mulher que se dispõem a ocupar cargo público sabem que estarão sob escrutínio. Quem lida com recurso público precisa estar preparado para o acompanhamento dos órgãos de controle e para o olhar atento da sociedade. Nós temos absoluto respeito pelo trabalho da Polícia Federal e pelo Poder Judiciário. Decisão judicial se cumpre e se recorre nos autos, no momento oportuno. Mas é preciso reforçar: estamos tratando de uma investigação, não de uma condenação.”

O vereador também chamou atenção para o volume de obras executadas no município nos últimos anos, defendendo que os recursos federais se converteram em infraestrutura.

“É preciso perguntar à população se essas emendas não estão nas ruas pavimentadas. Foram mais de 1.600 vias asfaltadas desde 2017. Estamos falando de bairros como Porto da Ilha, Caminho do Sol, José e Maria, entre outros. Se o recurso viesse e a obra não aparecesse, haveria motivo imediato para questionamento. O que defendemos é que as emendas chegaram e resultaram em pavimentação, em avenidas estruturantes e em equipamentos públicos.”

Sobre críticas de falta de transparência nas licitações, Hoffman afirmou que o embate faz parte do ambiente político.

“Requerimentos e indicações fazem parte da arena política. Aprovar ou rejeitar propostas acontece em todas as esferas. Não se pode transformar a dinâmica do plenário em prova de conivência. A oposição cumpre seu papel, e a situação também apresenta seus pedidos de informação. O debate político é legítimo e permanente.”

Ele ainda citou o calendário eleitoral e disse que o momento da operação causa preocupação.

“É uma investigação que, ao que consta, tramita desde 2023. Estamos em período de definição de chapas e articulações partidárias. Naturalmente, isso desperta atenção. Mesmo assim, seguimos defendendo respeito às instituições e continuidade das obras: unidades básicas de saúde, creches, escolas e pavimentações que estão em andamento.”

Oposição fala em indícios graves e questiona qualidade das obras

Já o vereador Gilmar Santos, da oposição, afirmou que a operação não surge de forma aleatória e defendeu aprofundamento das apurações.

“Esse processo não nasce do nada. Ele parte de indícios de movimentações suspeitas. O que está sendo investigado em Petrolina dialoga com mudanças estruturais ocorridas nos últimos anos, especialmente na destinação de emendas parlamentares por meio da Codevasf. Diversos órgãos de controle já apontaram fragilidades nesse modelo. Precisamos analisar com responsabilidade o que está posto na decisão judicial.”

Gilmar destacou trechos do relatório que apontam possíveis falhas técnicas em contratos de pavimentação.

“Há menções a ausência de estudos técnicos preliminares, falhas na medição de obras, falta de fundamentação técnica e indícios de favorecimento em processos licitatórios. Um dos pontos que chama atenção é a desclassificação de empresas com propostas mais vantajosas e a contratação de outra com valor mais alto. Esses elementos precisam ser explicados de forma clara à sociedade.”

O vereador também questionou a qualidade das obras executadas.

“Não se trata de ser contra a chegada de recursos. Queremos que venham cada vez mais verbas para Petrolina. A pergunta é: a que preço? Há relatos de esfarelamento do pavimento, fissuras, buracos e afundamentos em bairros como Maria Teresa, Dom Avelar e São Gonçalo. Se há milhões envolvidos, é preciso que a qualidade esteja à altura do investimento.”

Sobre possíveis medidas da Câmara, Gilmar afirmou que a oposição continuará apresentando requerimentos.

“Nosso papel é fiscalizar. Vamos seguir solicitando informações e cumprindo nossa prerrogativa constitucional. Transparência não pode ser vista como afronta, mas como dever. Quando pedidos de informação são sistematicamente rejeitados, isso gera desconfiança na população.”

A Operação Vassalos segue em andamento. Até o momento, não há condenações. Os investigados têm negado irregularidades e afirmam que os recursos foram aplicados em obras estruturantes no município. A reportagem tenta contato com as defesas citadas.