Problemas no Vila Verde e Vila Real viram novo campo de batalha entre governo e oposição na Câmara

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O drama enfrentado por moradores dos residenciais Vila Verde e Vila Real, no bairro Antônio Cassimiro, entrou no centro do debate político da Câmara de Petrolina na sessão desta quinta-feira (12). O Requerimento nº 099/2026, apresentado pelo vereador Dhiego Serra, pedia informações formais da Prefeitura sobre falhas construtivas nos empreendimentos, possíveis vistorias técnicas, medidas administrativas adotadas e até eventual restrição de novos alvarás às empresas responsáveis, caso as irregularidades fossem confirmadas.

O que poderia ser apenas uma discussão técnica sobre habitação popular acabou se transformando em mais um duelo entre governo e oposição, desta vez com um ingrediente conhecido no plenário: a tentativa de empurrar responsabilidades para gestões passadas.

No requerimento, Dhiego pediu que a Prefeitura esclarecesse se tem conhecimento formal das falhas relatadas pelos moradores, se houve fiscalização técnica, quais providências foram ou estão sendo tomadas e se o município exige das empresas responsáveis os reparos necessários.

Ao pedir destaque para discutir a matéria, o vereador Ronaldo Cancão usou a tribuna não apenas para comentar o requerimento, mas para fazer uma retrospectiva e responsabilizar administrações anteriores por problemas urbanos em Petrolina.

Segundo ele, “as mazelas de hoje são as inconsequências do passado”. Em sua fala, Cancão citou liberações de loteamentos em áreas de riachos e de drenagem natural, associando decisões antigas ao agravamento de problemas atuais.

O vereador também aproveitou o momento para defender a necessidade de um plano mais amplo de macrodrenagem. Disse que o prefeito Simão Durando deverá enviar à Câmara, na próxima semana, o plano de macrodrenagem de Petrolina, e associou a solução dos problemas a novos investimentos públicos. Para Cancão, será preciso impedir, daqui para frente, construções em áreas de risco e em leitos naturais que cortam o município.

A resposta veio do líder da oposição, Ronaldo Silva, que contestou a tentativa de jogar a responsabilidade apenas sobre o passado e criticou a comparação feita por Cancão com o bairro Dom Avelar e outros loteamentos antigos.

Na tribuna, Ronaldo afirmou que “a água desce, a água não sobe” e reagiu à tentativa de ligar problemas em áreas distintas da cidade. Segundo ele, não se pode desviar o foco da situação atual dos empreendimentos Vila Verde e Vila Real usando loteamentos liberados há décadas, quando a legislação urbana era diferente da que existe hoje.

Em outro momento, o vereador disse que o discurso governista tentava “tirar a responsabilidade de um governo para jogar em outro que passou há 30 anos atrás” e resumiu a crítica com um apelo direto: “Vamos olhar para frente, vereador. Vamos quebrar o retrovisor. O que passou, passou. A gente tem que olhar para frente, não para trás”.

O líder do governo, Diogo Hoffmann, adotou um tom mais moderado e anunciou voto favorável ao requerimento de Dhiego Serra. Antes disso, porém, também tratou de delimitar responsabilidades políticas e administrativas.

Hoffmann se solidarizou com os moradores e lembrou que o empreendimento foi construído com recursos do Minha Casa, Minha Vida, durante o governo federal da época. Também destacou que os residenciais receberam licenças na gestão do então prefeito Júlio Lóssio, e afirmou que, se depois se identificou que a área possui lençol freático e água aflorando naturalmente, isso se tornou um problema que hoje exige solução prática.

Ao mesmo tempo, o vereador ponderou que não vê respaldo jurídico, neste momento, para impedir que a empresa apontada dispute outras obras ou obtenha novas licenças, defendendo que uma eventual responsabilização precisa seguir os critérios legais e judiciais adequados. Na fala, Hoffmann afirmou que o essencial é encontrar uma saída para os moradores e disse que, no que competir ao prefeito Simão Durando e à equipe municipal, haverá cobrança por providências.

O debate mostrou duas coisas ao mesmo tempo. A primeira: há, sim, um problema concreto nos residenciais Vila Verde e Vila Real, reconhecido por governistas e oposicionistas. A segunda: mesmo diante de uma demanda habitacional objetiva, a Câmara continua transformando boa parte das discussões em queda de braço político sobre heranças administrativas.

No fim, apesar do discurso mais inflamado e do pedido de destaque de Ronaldo Cancão, o Requerimento nº 099/2026 foi aprovado por 15 votos a zero.