À medida que o país se aproxima do Dia Internacional da Mulher, celebrado em 8 de março, um tema ganha força nas discussões: a prevenção à violência contra meninas e mulheres. Em entrevista, a psicóloga e educadora social da Associação Civil de Articulação para a Cidadania (ACARI), Ailma Barros, destacou que os dados nacionais são alarmantes e que a realidade da região do Vale do São Francisco exige atenção urgente.
Segundo ela, a organização atua hoje com foco no enfrentamento à violência contra crianças e adolescentes, com ênfase na prevenção. “A ACARI iniciou o trabalho com proteção de direitos de mulheres e crianças, mas nos últimos anos passou a concentrar esforços no enfrentamento à violência contra crianças e adolescentes. Quando a gente fala em prevenção, estamos falando de processos formativos com profissionais da rede de proteção, com crianças, adolescentes e também com as famílias, discutindo o que é violência e como ela se manifesta no cotidiano”, afirmou.
Ailma ressalta que a violência não pode ser analisada de forma isolada. “A violência contra meninas e mulheres está relacionada a questões estruturais como machismo, racismo e desigualdade social. Não é um problema individual, é um problema coletivo e histórico. Por isso, nosso trabalho também envolve educação sexual de qualidade, para que crianças e adolescentes compreendam seus direitos e saibam identificar situações de risco.”
Violência sexual atinge principalmente meninas de 10 a 13 anos
Um dos pontos mais preocupantes, segundo a psicóloga, é a incidência de violência sexual contra meninas. “No Brasil, a cada seis minutos uma mulher sofre estupro. E, desses casos, cerca de 60% das vítimas têm entre 10 e 13 anos. Nenhuma outra faixa etária sofre mais violência sexual do que essa. Estamos falando de crianças. Isso mostra o tamanho da urgência do tema”, destacou.
Ela explica que o silêncio ainda é um dos maiores obstáculos para o enfrentamento. “A violência sexual é muito protegida pelo silêncio. Muitas vezes não se fala sobre educação sexual, não se orienta a menina sobre o próprio corpo, sobre limites e sobre onde buscar ajuda. Sem informação, a proteção fica comprometida.”
Falta de dados dificulta enfrentamento na região
Na região de Petrolina e Juazeiro, Ailma aponta outro desafio: a ausência de dados consolidados. “Nós não temos boletins consolidados das polícias ou estatísticas organizadas que nos permitam dimensionar a violência. Já tivemos acesso a dados do Conselho Tutelar em anos anteriores, mas ainda há uma grande lacuna de informações. Isso dificulta o planejamento de políticas públicas eficazes.”
Ela chama atenção também para possíveis subnotificações de casos de exploração sexual. “Em levantamentos anteriores, havia muitos registros de abuso, mas apenas um caso classificado como exploração sexual. E sabemos que essa não é a realidade. Estamos em um entroncamento regional, com circulação de pessoas de várias cidades. É preciso aprimorar a identificação desses casos.”
A psicóloga faz ainda uma correção conceitual importante. “Não utilizamos o termo prostituição infantil. A palavra prostituição pressupõe escolha, e criança não escolhe. O termo correto é exploração sexual de crianças e adolescentes.”
Sinais de alerta começam com mudanças de comportamento
Em relação aos primeiros sinais de violência, Ailma orienta que pais e responsáveis observem mudanças bruscas de comportamento. “Crianças que sofrem violência podem se tornar mais silenciosas, retraídas ou tentar evitar determinadas pessoas. Muitas vezes o agressor é alguém do convívio familiar ou próximo. Em 81% dos casos, a violência é cometida por alguém conhecido da vítima.”
Ela alerta para atitudes comuns que podem ignorar esses sinais. “Às vezes a criança demonstra resistência em cumprimentar ou abraçar alguém, e o adulto insiste em nome da ‘boa educação’. Esse comportamento pode ser um alerta. Não significa que sempre haverá violência, mas é um sinal que merece atenção.”
Para ela, o diálogo é a principal ferramenta de proteção. “Vivemos uma transição no modelo de educação. Saímos de uma lógica autoritária e muitos pais hoje não sabem como equilibrar limites e diálogo. O mais importante é criar um espaço seguro, onde a criança sinta confiança para falar. Muitas vezes, quando denunciam, elas procuram primeiro a escola, não os pais, por medo de não serem acreditadas.”
Estrutura do Estado é insuficiente, afirma psicóloga
Ailma também critica a redução da atuação do Estado na área da proteção à infância. Ela cita o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), que completou mais de 30 anos, e lembra que, pela Constituição, crianças e adolescentes são prioridade absoluta.
“Petrolina, pelo porte populacional, já deveria estar discutindo a criação de um quinto Conselho Tutelar. Quando a estrutura é insuficiente, o atendimento perde qualidade. Não é apenas uma questão técnica, é uma questão de prioridade política.”
Ela reforça que a cobrança deve partir da sociedade. “É dever da população exigir que as políticas para crianças e adolescentes sejam tratadas como prioridade real, e não apenas no papel.”
8 de Março deve ser data de mobilização, não só de homenagens
Ao falar sobre o Dia Internacional da Mulher, Ailma lembra que a data nasceu da luta por direitos trabalhistas e igualdade. “É uma data de resistência. Não pode se resumir a flores e homenagens. O Brasil vive uma escalada de violência contra mulheres e meninas.”
Ela cita dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública para reforçar o alerta. “Em 2024, a violência letal no país apresentou queda geral, mas os índices de violência letal contra mulheres e contra crianças e adolescentes aumentaram. Isso precisa ser o centro do debate.”
Para a psicóloga, a prevenção começa nas conversas do dia a dia. “Precisamos discutir como construir culturas de paz, como respeitar mulheres e meninas como sujeitos de direitos, com integridade física e psicológica garantida. A prevenção não acontece apenas na delegacia ou no conselho, ela começa em casa, na escola, na igreja, nas associações comunitárias.”


