Os restaurantes universitários da Universidade Federal do Vale do São Francisco (Univasf) foram temporariamente fechados após o encerramento do contrato com a empresa responsável pela operação do serviço. A decisão foi anunciada pela instituição depois de uma série de problemas no funcionamento das unidades.
Segundo a universidade, os espaços permanecerão fechados até a conclusão de um novo processo licitatório para contratação de outra empresa. Enquanto isso, a instituição informou que irá conceder um auxílio emergencial de alimentação para estudantes em situação de vulnerabilidade socioeconômica, com o objetivo de reduzir os impactos da suspensão do serviço.
A interrupção do funcionamento dos restaurantes preocupa parte da comunidade estudantil, principalmente quem depende da alimentação subsidiada para permanecer na universidade.
Aluno do curso de Ciências Sociais da Univasf e integrante do coletivo estudantil Rumo ao Futuro, Alison Souza afirma que a notícia foi recebida com apreensão entre os estudantes.
“A situação é complicada porque esse cenário acaba se repetindo. Quase sempre, no início ou no fim de semestre, quando acontece troca de empresas por causa do processo licitatório, a gente já percebe que o serviço começa a perder qualidade. Aos poucos, a alimentação vai ficando mais precária, até que chega um momento em que a empresa encerra as atividades. Esse é um problema que vem acontecendo há alguns anos e, novamente, a comunidade universitária se vê diante da possibilidade de ficar sem o restaurante funcionando.”
Segundo ele, a interrupção do serviço afeta principalmente estudantes de outras cidades que dependem do restaurante universitário para garantir a alimentação diária durante o período de estudos.
“A gente precisa pensar nos estudantes que estão mais vulneráveis, especialmente aqueles que vieram de fora e não têm estrutura aqui. Muitos passam o dia inteiro dentro da universidade, entre aulas, projetos e pesquisas. Sem o restaurante, essas pessoas ficam sem uma alternativa de alimentação acessível. O auxílio emergencial ajuda, mas não resolve completamente, porque existem estudantes que também precisam, mas não estão cadastrados na categoria de vulnerabilidade.”
De acordo com informações divulgadas pela universidade, o auxílio emergencial será de R$ 250 e será destinado apenas a estudantes classificados na categoria de maior vulnerabilidade socioeconômica, conhecida como P1 dentro da política de assistência estudantil.
Para Alison, o valor não cobre os custos que os estudantes terão com alimentação fora do restaurante universitário.
“Esse valor está abaixo do que a universidade subsidiava quando o restaurante funcionava. Antes, mesmo quem não era considerado vulnerável pagava cerca de R$ 17,49 por refeição. Ou seja, o subsídio que existia dentro do restaurante era maior do que o auxílio que agora está sendo pago diretamente aos estudantes. Na prática, isso significa que muitos vão precisar gastar mais para conseguir se alimentar.”
O estudante também relaciona o problema à redução de recursos destinados às universidades federais nos últimos anos, o que, segundo ele, tem impactado políticas de permanência estudantil.
“Existe um contexto maior por trás disso tudo. Desde 2016 a gente tem acompanhado cortes no orçamento das universidades, e isso afeta diretamente programas de assistência estudantil. A cada semestre fica mais difícil garantir condições para que estudantes de baixa renda permaneçam na universidade. O restaurante universitário é uma dessas políticas fundamentais.”
A suspensão do serviço também reacendeu debates sobre transparência na gestão dos contratos e sobre a terceirização da operação do restaurante universitário.
“A universidade muitas vezes tenta tratar essas situações internamente, mas a comunidade estudantil sente falta de mais transparência. Foi por isso que começamos a levar essas discussões para fora, inclusive para a imprensa. O objetivo é mostrar que o problema não é pontual. São estudantes que passam o dia todo na universidade e, em alguns casos, não têm garantia de uma refeição adequada.”
Recentemente, estudantes realizaram um protesto durante uma visita do ministro da Educação à instituição, chamando atenção para questões relacionadas à assistência estudantil e à estrutura da universidade.
“A gente entende que o diálogo é importante, mas ele precisa vir acompanhado de pressão e visibilidade. O protesto teve justamente esse objetivo: mostrar nacionalmente o que os estudantes daqui estão enfrentando. Quando falamos de assistência estudantil, estamos falando de permanência, de acesso real à educação superior.”
Dados da própria universidade indicam que mais de 70% dos estudantes da Univasf estão em situação de vulnerabilidade socioeconômica, segundo informações da Pró-Reitoria de Assistência Estudantil.
Para Alison, esse cenário torna ainda mais urgente a manutenção de políticas de apoio dentro da universidade.
“A Univasf tem uma característica muito particular, porque está no interior do Sertão e atende muitos estudantes da região. A universidade é conhecida como a universidade do Sertão, mas para que isso funcione de verdade é preciso garantir que os estudantes do Sertão consigam permanecer estudando aqui. Sem assistência estudantil, muita gente simplesmente não consegue continuar.”
A universidade informou que o prazo estimado para a conclusão do novo processo licitatório é de até 60 dias, mas a reabertura dos restaurantes dependerá da finalização de todas as etapas administrativas e da contratação da nova empresa.
Enquanto isso, estudantes acompanham com expectativa os próximos passos da instituição.
“O que a gente espera é que esse novo processo traga melhorias reais. Existe uma discussão entre os estudantes sobre o modelo de terceirização do restaurante universitário, porque muitas vezes a lógica da empresa é o lucro, e não necessariamente atender uma demanda social. Mesmo assim, esperamos que essa nova licitação consiga pelo menos garantir um serviço mais estável e acessível.”
A Univasf divulgou que a Pró-Reitoria de Assistência Estudantil (Proae), no uso de suas atribuições legais e considerando a deliberação e aprovação da Câmara de Assistência Estudantil, em reunião ordinária realizada em 10 de março de 2026, comunica que será disponibilizado o Auxílio Alimentação Emergencial, no valor de R$ 250,00 (duzentos e cinquenta reais).
O referido auxílio será concedido, inicialmente, a 1.627 (mil seiscentos e vinte e sete) estudantes com matrícula ativa, habilitados a acessar os Restaurantes Universitários na condição P1 e que utilizaram efetivamente o serviço no último trimestre de 2025, conforme levantamento realizado pelo Setor de Pagamentos da Proae



