O período da gestação e do pós-parto é um tempo de intensas transformações, físicas, hormonais e emocionais, marcado também por um alto grau de vulnerabilidade para muitas mulheres. Em Petrolina, o Centro de Parto Normal vem fortalecendo uma iniciativa que se tornou essencial para o cuidado integral das gestantes e puérperas: o pré-natal psicológico, um serviço gratuito que desde abril de 2025 passou a funcionar sem limite de vagas.
O programa oferece sessões individuais e grupos voltados à preparação emocional para o parto e ao enfrentamento dos desafios do puerpério, fase em que podem surgir quadros de depressão pós-parto e até o luto perinatal. A psicóloga Isabel Mendes, que atua no Centro de Parto Normal, explica que o pré-natal psicológico é um trabalho de prevenção, mas também de tratamento.
“Antes de mais nada, o pré-natal psicológico é um trabalho de prevenção. Ele também funciona como tratamento para mulheres que já estão enfrentando sintomas de depressão durante a gestação, mas o foco é evitar que surjam alterações emocionais significativas, como a ansiedade elevada e o estresse. A mulher grávida, por conta das mudanças hormonais, produz muito cortisol, o hormônio do estresse, e isso pode prejudicar o bebê, levando a parto prematuro, baixo peso e até atraso no desenvolvimento”, afirma Isabel.
O projeto é dividido em etapas. A primeira e a última são individuais, enquanto as demais acontecem em grupo. “A gente trabalha diversos temas voltados para a gestação: as alterações hormonais de cada trimestre, os tipos de parto, os direitos das gestantes, a violência obstétrica. É um trabalho de psicoeducação, com muita orientação e escuta”, explica.
Mesmo com o serviço disponível e sem restrição de vagas, Isabel revela que a procura ainda é baixa. “Temos vagas, mas infelizmente a procura ainda é pouca. O acesso é livre: basta ser moradora de Petrolina e estar grávida. Não precisa de encaminhamento médico. Muitas vezes as mulheres não procuram porque ainda não compreendem a importância do cuidado emocional durante a gestação”, comenta.
Segundo a psicóloga, a resistência é cultural. “O pré-natal psicológico é algo que precisamos divulgar mais. Muitas mulheres acham que é um luxo, quando na verdade é uma necessidade. Ainda são poucas as que aceitam participar, mesmo quando a gente explica durante o atendimento individual.”
Sobre os sinais de alerta, Isabel destaca que é preciso atenção à persistência de sintomas emocionais. “A tristeza é uma emoção natural, mas quando ela não passa, quando vem acompanhada de choro frequente, alteração no sono ou no apetite, é um sinal de que algo não vai bem. A ansiedade também é um marcador importante. No primeiro trimestre ela tende a ser alta, dá uma diminuída no segundo, e no final da gestação costuma voltar a crescer. A mulher precisa entender que pedir ajuda não é fraqueza, é cuidado. Esse acompanhamento ajuda não só a mãe, mas também o bebê e toda a família.”
A psicóloga também chama atenção para o luto perinatal, ainda envolto em muito silêncio. “Infelizmente, a dor dessas mulheres ainda é pouco reconhecida. Às vezes, nem nas maternidades há um acolhimento adequado. No Centro de Parto, fazemos esse trabalho de estar presentes no momento da perda, oferecendo espaço de fala e escuta, mas respeitando o tempo de cada mulher. Depois, orientamos para continuar o acompanhamento na psicoterapia. É importante trabalhar o luto, porque esse bebê já existia no imaginário da mãe antes mesmo da gestação. É uma dor profunda e precisa de cuidado.”
O apoio familiar também é determinante nesse processo. “A família pode ajudar muito, mas também pode atrapalhar. Ainda há quem diga que ‘gravidez não é doença’ ou que a mulher está ‘manhosa’. Essas falas invalidam o sofrimento. O marido também sofre, mas de um jeito diferente, e precisa ser incluído nesse cuidado. Não existe régua para medir dor. Não é porque o bebê tinha três meses de gestação que a perda dói menos do que a de uma mãe cujo filho nasceu e viveu um mês. Cada mulher sente de um jeito.”
“A maternidade é um momento de muita transformação. E ninguém precisa vivê-lo sozinha”, conclui Isabel Mendes.



