“Se a gente não tomar cuidado agora, a tradição vai morrer”, diz Kátia Gonçalves sobre o 3º Encontro Territorial de Reisados do São Francisco, que acontece neste sábado em Poço de Fora

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Evento celebra a fé, a cultura popular e a memória dos povos tradicionais do Sertão do São Francisco.

O terceiro Encontro Territorial de Reisados do Sertão do São Francisco acontece neste sábado (10), na comunidade de Poço de Fora, em Curaçá, reunindo nove grupos tradicionais de seis municípios da região. O evento tem como objetivo valorizar a cultura popular e preservar as manifestações tradicionais que estão em risco de desaparecer.

Para falar sobre a proposta, a programação e a importância do encontro, o programa Nossa Voz conversou com Kátia Gonçalves, coordenadora do projeto.

“A gente começa sempre lembrando de uma frase de Nego Bispo: ‘O território não é só o lugar onde você nasce, mas o lugar onde você preserva a memória coletiva de um povo’. E foi exatamente pensando nisso que decidimos realizar esse encontro, reunindo grupos que guardam tradições, histórias e saberes que muitas vezes estão esquecidos.”

Segundo Kátia, a edição deste ano se diferencia pelo número de grupos participantes e pelo intercâmbio cultural que proporciona. “Antes, a gente realizava apenas uma apresentação do Reisado, no dia 6 de janeiro, e era algo muito restrito, feito pelo senhor Jacó, depois pela minha mãe por 40 anos. Mas, em diálogo com o Fernandinho, que é de Curaçá, pensamos: como dar visibilidade a esses grupos, a esses guardiões que estão nos seus territórios e que não têm reconhecimento nem valorização? Então, a partir daí, começamos a fazer encontros menores, com dois ou três grupos, depois dois, e agora conseguimos reunir grupos de seis municípios, com nove grupos diferentes, incluindo Congos de Juazeiro, Banda de Pífano de Uauá e de Curaçá, Reisado de Sobradinho e Quilombo Ilha Redonda.”

Ela reforça a importância da preservação cultural: “Se a gente não tomar cuidado agora para poder estar justamente fazendo esse intercâmbio, envolvendo crianças, jovens, adolescentes e os idosos nesse processo de partilhar e compartilhar essa sabedoria, vai morrer”, disse Kátia Gonçalves.

Sobre a articulação e a escolha dos grupos, Kátia explica que limitações financeiras e parcerias locais influenciam a seleção. “A gente chama os grupos de acordo com as condições, mas sempre com sensibilidade e diálogo com as secretarias de cultura dos municípios. Quando eles acolhem o projeto, liberam transportes, apoiam a logística. Mas a ideia é que, no futuro, possamos envolver todos os 10 municípios do território do São Francisco, porque cada manifestação tem seu valor e cada guardião precisa ser reconhecido.”

A coordenadora detalha ainda o simbolismo de Poço de Fora como sede do encontro: “Essa comunidade é formada por povos tradicionais, mesmo sem o reconhecimento formal da Fundação Palmares. É lá que surgiu o grupo Cantaruiz Não é Pecado, que idealizou esse encontro. Eles têm 106 anos de resistência e, inclusive, foram homenageados em Salvador com uma moção de aplauso pelo trabalho de preservação cultural. A gente quer que esse exemplo inspire outras comunidades e jovens a se engajarem na cultura popular.”

Além das apresentações, o evento oferece três oficinas abertas ao público, com 20 vagas cada: comunicação popular e comunitária, ministrada pela equipe do IRPA; turismo comunitário e certificação de pontos de cultura, conduzida pelos agentes territoriais do Ministério da Cultura; e associativismo, com o procurador-geral do município de Ipupiara. “As oficinas são uma forma de fortalecer o protagonismo comunitário. Não é só entretenimento, é educação, troca de saberes, construção coletiva. A participação das crianças, jovens e adultos nesse processo garante que a cultura seja vivida e perpetuada”, afirma Kátia.

Ela reforça a importância da colaboração da comunidade: “Alguém chega e traz um bolo, outro ajuda a montar a decoração, e assim todos contribuem. É um evento construído por mãos e corações. Esse envolvimento dá sentido ao encontro e mostra que cultura não é só palco, luz e som, mas cuidado, respeito e transmissão de memória.”

Programação completa do encontro:

  • 10h: Chegada dos grupos
  • 11h: Formação da primeira associação dos grupos tradicionais do Sertão do São Francisco
  • 12h: Almoço comunitário
  • 14h: Início das oficinas
  • 15h: Concentração no mercado municipal para o cortejo
  • 16h: Saída do cortejo até a igreja
  • 16h às 22h: Apresentações culturais, incluindo Reisado, Banda de Pífanos, Congos e Marujada

Kátia conclui: “É fundamental que as pessoas levem suas famílias para participar. Aqui, os guardiões mantêm o que há de mais sagrado e puro na cultura popular, sem visibilidade, muitas vezes de forma anônima. E é exatamente isso que torna o encontro tão especial: unir gerações, valorizar o saber ancestral e garantir que ele não se perca.”

O evento conta com o apoio da Bahia Gazeta, governo do Estado da Bahia, deputado Zó e as secretarias de cultura dos municípios de Sobradinho, Curaçá, Uauá, Canudos, Sete de Setembro e Juazeiro.