Uma ponderação da arquibancada

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Por Ângelo Castello Branco

Ao analisar a baixa adesão popular ao ato alusivo ao 8 de janeiro promovido pelo governo federal, o jornalista Ângelo Castello Branco propõe um olhar que vai além da conjuntura política imediata. A partir da filosofia política liberal, o autor questiona o conteúdo simbólico do evento e sugere que a dificuldade de mobilização está menos ligada à comunicação ou à militância e mais a uma dissonância moral profunda: a distância entre celebrações que afirmam a liberdade e rituais públicos percebidos como exaltação do poder punitivo do Estado. É nesse terreno filosófico, simbólico e intuitivo que o texto de Ângelo Castello Branco discorre.

Uma ponderação da arquibancada

Pode-se oferecer uma leitura filosófica bastante consistente para a baixa adesão popular ao evento alusivo ao 8 de janeiro promovido por Lula.

Não se trata apenas de um problema de mobilização política ou de comunicação, mas de um conflito mais profundo entre o sentido simbólico do evento e valores que, historicamente, estruturam a noção moderna de liberdade.

Do ponto de vista da filosofia política liberal, a legitimidade de um evento público depende daquilo que ele celebra.

As sociedades tendem a se mobilizar em torno de símbolos afirmativos: liberdade, ampliação de direitos, superação de opressões, reconciliação institucional, perdão civil, pacificação social.

Datas que permanecem no imaginário coletivo são aquelas associadas a conquistas morais, e não à reafirmação do poder punitivo do Estado. A anistia ampla, geral e irrestrita de 1979, por exemplo, é uma delas.

O problema central desse evento de oito de janeiro é que ele foi percebido, por amplos setores da sociedade, não como uma celebração da democracia em seu sentido substantivo, mas como a exaltação da punição, da prisão e da repressão política.

Sob essa ótica, o evento acaba sendo algo que, filosoficamente, carrega uma energia negativa: a normalização do encarceramento por opinião, a relativização da livre manifestação do pensamento, a legitimação de prisões políticas e a ressurreição simbólica do crime de opinião — algo que o liberalismo clássico e o constitucionalismo moderno sempre trataram como um resquício primitivo de regimes autoritários.

Não é casual, portanto, que o público tenha se restringido majoritariamente a servidores públicos e militantes orgânicos, grupos que comparecem por dever funcional ou fidelidade ideológica.

O “povão”, que reage mais por intuição moral do que por alinhamento partidário, percebe quando um evento não celebra a vida, a liberdade ou a esperança, mas sim o conflito permanente e a punição exemplar.

A população tende a se afastar de rituais que não oferecem um horizonte positivo, mas apenas reafirmam antagonismos.

Grandes líderes da história — independentemente de espectro ideológico — são lembrados por associarem seu legado à expansão da liberdade, à superação da escravidão em todas as suas formas, à proteção da dissidência e à defesa do direito de errar, pensar e se expressar livremente.

Quando um governo tenta transformar em símbolo aquilo que nega esses princípios, o resultado tende a ser o esvaziamento cívico.

Em síntese, o evento celebrou o que a filosofia política moderna considera um retrocesso: o predomínio do poder punitivo sobre a liberdade. Datas mobilizam quando afirmam valores universais; fracassam quando se fundam na negatividade, na coerção e na supressão do dissenso.

É essa dissonância moral e simbólica — mais do que qualquer cálculo político — que ajuda a explicar sua baixa frequência.

Afinal, existe sempre algo de místico todas as vezes que se mexe com a energia desse insondável e misterioso universo em que nos encontramos.

(Ângelo Castello Branco é jornalista, advogado e escritor, membro da Academia Pernambucana de Letras. Escreve sobre política, aspectos socioeconômicos e cultura)