“Hemofilia adquirida tem mortalidade acima de 60%, mas diagnóstico precoce salvou paciente no HU-Univasf”, diz médico

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Um caso raro de hemofilia adquirida foi diagnosticado no Hospital Universitário da Universidade Federal do Vale do São Francisco (HU-Univasf), em Petrolina, unidade vinculada à Empresa Brasileira de Serviços Hospitalares (Ebserh). A doença ocorre quando o próprio organismo passa a produzir anticorpos contra os fatores de coagulação do sangue, o que pode provocar hemorragias graves.

O paciente é um homem de 52 anos, sem histórico pessoal ou familiar de sangramentos, que procurou atendimento médico inicialmente por uma infecção de partes moles. Após tratamento prolongado com antibióticos, passou a apresentar hematomas extensos pelo corpo e perda significativa de peso, o que levantou a suspeita de outras doenças mais comuns antes da confirmação do diagnóstico raro.

Em entrevista ao programa Nossa Voz, nesta segunda-feira (26), o médico Paulo Cufua, residente em Clínica Médica do HU-Univasf pelo Programa de Cooperação Brasil–Angola da Ebserh, explicou que a hemofilia é, na maioria dos casos, hereditária, mas que a forma adquirida pode surgir ao longo da vida e costuma acometer pessoas mais idosas, o que não se aplicava ao paciente atendido em Petrolina.

“A hemofilia, geralmente, os casos mais frequentes são os casos hereditários, que é um transtorno que afeta o fator de coagulação do sangue, no qual a pessoa sangra mais do que o normal. A pessoa já nasce com essa deficiência. Mas também temos a hemofilia adquirida, que a pessoa pode desenvolver ao longo da vida, principalmente em pessoas com idade mais avançada, acima dos 60 anos. E esse caso aqui de Petrolina chamou muita atenção porque o paciente estava fora dessa faixa etária e não apresentava fatores de risco conhecidos.”

Segundo o médico, o caso se tornou ainda mais desafiador porque o paciente não tinha histórico de hemorragias, nem pessoal nem familiar, o que dificultou a suspeita inicial da doença.

“Esse caso chamou a atenção de todos os envolvidos porque, primeiro, o paciente estava fora da faixa etária habitual e não tinha fatores de risco. Ele começou a ser atendido por um problema de saúde leve, uma infecção de partes moles, fez uso de antibióticos por um período prolongado, cerca de 30 dias, com três antibióticos mais fortes, e a infecção não regrediu. Depois disso, surgiram hematomas e uma perda de peso importante, cerca de 20 quilos em dois meses, o que levou à investigação de doenças carcinogênicas, que foram descartadas. Também não havia qualquer histórico de sangramento na família.”

Durante a investigação clínica, diversas hipóteses precisaram ser descartadas até que exames específicos apontassem a alteração na coagulação sanguínea.

“A princípio, tivemos que investigar tudo, principalmente doenças imunológicas. Foi preciso afastar lúpus eritematoso sistêmico, artrite reumatoide e câncer, porque a perda de peso era significativa. Os exames de imagem e de sangue não indicaram essas patologias. Quando realizamos o coagulograma, identificamos uma alteração importante no tempo de tromboplastina parcial ativado, e a partir daí começamos a alinhar o diagnóstico de hemofilia adquirida.”

Ainda de acordo com Paulo Cufua, há registros internacionais que associam casos de hemofilia adquirida a infecções e ao uso prolongado de antibióticos, mas, neste caso específico, essa relação não pôde ser confirmada.

“A Organização Mundial da Saúde descreve casos no mundo associados ao uso prolongado de antibióticos e também a infecções. Para o nosso paciente, esses dois elementos foram investigados, mas acabaram sendo descartados. Mesmo assim, o caso permanece aberto para futuras investigações, o que torna tudo ainda mais particular e desafiador.”

A literatura médica aponta que a taxa de mortalidade da hemofilia adquirida pode ultrapassar 60% quando o diagnóstico não é feito precocemente. No caso atendido pelo HU-Univasf, a atuação rápida da equipe foi decisiva.

“A hemofilia adquirida é uma doença rara, mas quando acontece tem uma percentagem de mortalidade muito alta, acima de 60%. Esse paciente ficou fora dessa estatística porque conseguimos atuar com antecedência. Por isso, é importante alertar a população: diante do surgimento de hematomas ou qualquer sinal diferente na pele, é fundamental procurar atendimento médico imediatamente. O diagnóstico precoce salva vidas.”

O médico também destacou o papel dos residentes e estudantes no acompanhamento do caso, que resultou na publicação de um artigo em uma revista científica internacional.

“Para nós, como residentes, foi extremamente importante porque tivemos a prática clínica de um caso real, palpável, que nos permitiu aprender muito. Além disso, foi um caso integrador, que resultou em pesquisa científica publicada. Isso é muito significativo, principalmente porque vamos entrar em um mercado de trabalho desafiador, lidando com vidas humanas.”

O relato do caso levou um diagnóstico feito no Sertão nordestino a um periódico de referência mundial, o que, segundo o médico, reforça a capacidade técnica da instituição.

“Isso mostra a capacidade dos nossos professores, do nosso hospital e dos meios de diagnóstico frente a doenças de grande impacto social e de difícil diagnóstico. Demonstra que estamos cada vez mais preparados para atender a população e diagnosticar doenças raras.”

Paulo Cufua está no Brasil há dois anos e integra o Programa de Cooperação Brasil–Angola, que promove a formação de profissionais de saúde por meio de intercâmbio entre os dois países.

“Eu estou há dois anos no Brasil em formação nesse programa de cooperação. Para participar, o médico precisa ser funcionário público em Angola e passar por um processo seletivo. No início, a adaptação foi difícil, principalmente por causa do sotaque e de algumas diferenças de linguagem, mas com o apoio dos preceptores e colegas brasileiros, hoje estamos bem integrados.”

Atualmente, mais de 500 profissionais angolanos participam do programa no Brasil. Em Petrolina, são cinco médicos em formação. O programa segue conforme o tempo de especialização, que pode variar entre dois e três anos.