Em alusão ao Dia Internacional da Mulher, celebrado em 8 de março, o programa Nossa Voz recebeu a cientista política Teresa Leonel, professora da Universidade do Estado da Bahia (UNEB), campus Juazeiro, para uma reflexão sobre os espaços ocupados pelas mulheres, os desafios ainda enfrentados e o papel da informação na construção de uma sociedade mais igualitária.
A data, historicamente marcada por debates sobre direitos e conquistas femininas, também reacende discussões sobre desigualdade salarial, violência de gênero e sub-representação política.
Mulheres ocupam mais espaços, mas desigualdade persiste
Durante a entrevista, Teresa destacou que houve avanços importantes nas últimas décadas, especialmente no acesso das mulheres ao mercado de trabalho e às universidades. No entanto, ela ressalta que a desigualdade ainda é estrutural.
“Hoje a mulher tem espaço em praticamente todos os campos profissionais e institucionais. Ela ocupa redações, salas de aula, cargos técnicos e administrativos. Mas, ao mesmo tempo, nós vivemos em uma sociedade que ainda carrega o machismo estrutural. Mesmo exercendo as mesmas funções, a mulher continua recebendo menos que o homem. Isso revela que o problema não é de competência, é de cultura.”
A professora também chama atenção para o recorte racial.
“Quando falamos da mulher negra, a situação é ainda mais complexa. Ela já nasce enfrentando duas barreiras estruturais: o machismo e o racismo. Isso limita oportunidades e dificulta o acesso a espaços de poder. A sociedade precisa reconhecer que essa desigualdade não é individual, ela é histórica.”
Violência e cultura machista ainda são obstáculos
Outro ponto abordado foi a persistência da violência contra a mulher, mesmo em pleno século XXI.
“É impressionante que ainda existam homens que enxergam a mulher como propriedade. Essa ideia é repassada de geração em geração e precisa ser combatida desde a base, na escola e dentro das famílias. O respeito precisa ser ensinado desde cedo.”
Segundo Teresa, a comunicação tem papel fundamental nesse enfrentamento.
“A mídia tem responsabilidade enorme. Nos últimos anos, a televisão está menos embranquecida, mais diversa. Mulheres negras, mulheres com diferentes corpos, diferentes idades, estão ocupando espaços de visibilidade. Isso é um avanço. Mas a forma como se comunica ainda precisa evoluir para não reforçar estereótipos.”
Linguagem e estereótipos: o cuidado necessário
A professora também alertou para o uso de termos e abordagens que podem reforçar preconceitos, inclusive na cobertura jornalística e esportiva.
“Muitas vezes, a desqualificação da mulher aparece de forma sutil, na piada, no comentário jocoso, na dúvida sobre sua capacidade. Isso precisa ser combatido com conhecimento e responsabilidade. A imprensa precisa oportunizar e, ao mesmo tempo, as mulheres precisam ocupar esses espaços e mostrar que têm competência.”
Política: por que ainda são minoria?
Apesar de representarem mais da metade da população brasileira, as mulheres ainda são minoria nos cargos eletivos. Para Teresa, o cenário é resultado de fatores culturais e históricos.
“O Brasil foi constituído dentro de uma lógica de poder masculina. As mulheres demoraram muito a ter direito ao voto e à participação política partidária. Ainda hoje existe desânimo, desqualificação e resistência. Muitas mulheres têm receio de entrar na política porque sabem que enfrentarão ambientes hostis.”
Ela destaca que a presença feminina é fundamental para ampliar debates e propor políticas públicas mais inclusivas.
Redes sociais: avanço e risco
As plataformas digitais também entraram na discussão. Para a professora, elas são ferramentas ambíguas.
“As redes sociais podem dar voz a mulheres que antes estavam silenciadas. Já vimos casos em que denúncias feitas pela internet ajudaram a salvar vidas. Mas, ao mesmo tempo, há desinformação e julgamentos sem responsabilidade. A liberdade de expressão não pode ser confundida com ausência de responsabilidade.”
O que celebrar no Dia da Mulher?
Apesar dos desafios, Teresa reforça que há conquistas importantes a serem celebradas.
“Hoje a mulher pode escolher. Pode casar ou não casar, ter filhos ou não ter filhos, construir carreira, mudar de área, estudar. Essa liberdade de escolha é uma conquista enorme. Ainda há muito a avançar, mas a voz da mulher está ecoando mais forte.”
Mensagem às novas gerações
Ao final da entrevista, a professora deixou uma mensagem para jovens que desejam ocupar espaços na sociedade.
“A mulher não pode desistir dos seus caminhos. É fundamental investir em conhecimento, distinguir fato de opinião, entender a realidade social e política onde vive. O estudo ainda é um dos caminhos mais sólidos para fortalecer a autonomia. Que cada mulher ocupe o espaço onde se sente preparada e levante bandeiras que realmente conhece.”



