Um novo exame começa a transformar a forma como o câncer do colo do útero é detectado no Brasil. O Sistema Único de Saúde (SUS) passa a incorporar o teste molecular de DNA-HPV como estratégia de rastreio da doença, considerada uma das que mais atingem mulheres no país. A mudança amplia a capacidade de identificar o vírus antes mesmo do surgimento de lesões, o que aumenta as chances de prevenção e diagnóstico precoce.
Para entender como funciona o exame e quais os impactos dessa mudança na saúde das mulheres, conversamos com a biomédica Dra. Juliene Coelho e a ginecologista Dra. Amanda Siqueira, que explicam o que muda a partir dessa nova recomendação.
A biomédica Juliene Coelho explica que o HPV é um vírus comum e diretamente ligado ao desenvolvimento do câncer do colo do útero, mas destaca que a tecnologia do exame não é exatamente nova. Segundo ela, o que mudou foi a forma como o rastreamento da doença passa a ser conduzido.
“É, o HPV é um vírus.É a sigla do papiloma vírus humano, responsável por causar lesões, verrugas, que podem ser precursoras do câncer do colo do útero. Eu gostaria só de fazer uma correção que na verdade esse teste que o Ministério da Saúde preconiza como nova forma de rastreio, o teste não é novo. O que é novo é a maneira como as organizações de saúde devem tratar o rastreio a partir de agora. Antes, o rastreio era feito a partir do exame citológico, o famoso Papanicolau, o preventivo como todo mundo conhece, e a recomendação agora é que se faça através da genotipagem do HPV, por trazer mais sensibilidade e uma possibilidade de rastreio em massa mais eficaz.”
De acordo com a ginecologista Amanda Siqueira, o exame deve ser direcionado principalmente para mulheres entre 25 e 64 anos e apresenta uma capacidade maior de identificar o vírus em comparação ao método tradicional.
“É, a implementação do DNA HPV deve ser para pacientes, para mulheres na faixa etária entre 25 e 64 anos e o que torna esse teste muito mais sensível do que a citopatologia é justamente a capacidade de identificar o vírus com mais precisão. Uma vez que a gente faz esse teste e ele dá negativo, a recomendação é que ele seja repetido apenas a cada cinco anos. Por mais que seja um teste um pouco mais caro e muitas vezes não esteja tão disponível, a longo prazo ele acaba sendo um investimento na própria saúde da mulher.”
A médica também explica que alguns tipos de HPV exigem maior atenção por estarem associados a um risco mais elevado de câncer.
“Existem vários tipos de HPV, mas hoje os que têm maior rastreio são os DNA 16 e 18, que têm o maior potencial oncogênico. Se a gente tiver esses tipos de HPV na amostra, a gente já precisa ficar mais atento e partir para uma colposcopia, que é quando a gente olha de pertinho o colo do útero com aumento para ver se existe alguma lesão. Mesmo que não tenha lesão, a presença desses tipos do vírus já indica que o acompanhamento precisa ser mais frequente.”
Apesar do avanço, a implementação do exame ainda enfrenta desafios no sistema público de saúde. Segundo Amanda Siqueira, o teste ainda não está disponível para toda a população.
“Ele veio como uma forma de substituir o Papanicolau, mas hoje a nossa realidade ainda é que ele não abrange toda a população. Muitas vezes a mulher chega ao posto de saúde, está em condições de fazer o exame e a gente coleta o preventivo porque é o que está disponível naquele momento. Em países mais desenvolvidos, as pacientes são chamadas para fazer o exame dentro de programas organizados de rastreio. Aqui ainda estamos caminhando para chegar nessa realidade.”
A médica cita como exemplo a realidade de hospitais públicos da região.
“Hoje, por exemplo, aqui no Hospital Dom Malan, nós temos o teste disponível, mas ele não é utilizado para rastreio da população em geral. Ele é utilizado para alguns casos de pacientes que já apresentam alterações e precisam de acompanhamento, porque ainda não existe quantidade suficiente para atender toda a demanda.”
A biomédica Juliene Coelho explica que a principal vantagem do exame molecular está na capacidade de detectar o vírus antes que ele provoque qualquer alteração visível no organismo.
“A gente precisa pensar que o teste molecular não vem para substituir completamente o Papanicolau, mas para ser uma ferramenta de rastreio. Imagine que você consegue detectar o vírus através desse teste independente de ter lesões ou verrugas, que são uma forma de manifestação. Você já consegue identificar se existe o DNA do vírus naquela amostra e, com isso, antecipar a possibilidade de desenvolvimento dessas lesões.”
Ela também destaca que o exame permite identificar com precisão qual tipo de vírus está presente.
“A diferença é que os testes moleculares antigos indicavam apenas se havia um grupo de vírus de alto risco. Já esse novo teste que o Ministério da Saúde implementa como forma de rastreio identifica qual é o oncotipo, como 16, 18 ou 45. Isso ajuda muito como ferramenta de prevenção, porque orienta melhor o acompanhamento da paciente.”
Mesmo com a evolução tecnológica, especialistas reforçam que a prevenção continua sendo a principal estratégia para reduzir os casos da doença.
“Nessa projeção de erradicar o câncer de colo do útero até 2030, as organizações de saúde lançaram mão dessa ferramenta mais moderna e mais sensível. A sensibilidade do teste da genotipagem varia de 95 a 98%, enquanto a metodologia anterior tinha uma sensibilidade de cerca de 85 a 90%. Mas além do exame, existe uma tríade muito importante que envolve vacinação, rastreio e tratamento das mulheres que apresentam a doença.”
A ginecologista Amanda Siqueira alerta que, na maioria dos casos, o câncer do colo do útero pode evoluir de forma silenciosa.
“Quando a doença está em um estágio mais avançado, a gente pode observar sintomas como dor pélvica, dor durante a relação sexual, sangramento após a relação ou até sangramento espontâneo fora do período menstrual. O problema é que antes da doença estar totalmente instalada os sintomas costumam ser muito leves e muitas vezes a mulher não percebe. Quando percebe, a doença já pode estar em um estágio mais avançado.”
Ela reforça que, por se tratar de uma doença causada por um vírus, a prevenção é possível.
“Hoje a gente sabe que o câncer do colo do útero não é uma doença genética. Ele é causado pelo contato com o vírus HPV. Por isso, existe a prevenção primária, que envolve educação sexual, uso de preservativo e também a vacina. O ideal é que essa vacina seja aplicada antes do início da vida sexual, porque assim quando houver o contato com o vírus a pessoa já terá proteção.”
A vacina contra o HPV está disponível gratuitamente no SUS.
“No SUS a vacina está disponível para meninos e meninas de 9 a 14 anos. O Ministério da Saúde também prorrogou a faixa etária e, até junho, pessoas de até 19 anos ainda podem se vacinar. É uma oportunidade importante para os pais se atentarem, porque essa vacina faz parte do calendário nacional desde 2014 e é uma das principais ferramentas de prevenção.”
A médica também destaca que algumas mulheres devem ter atenção redobrada com a prevenção e o acompanhamento médico.
“Mulheres que tiveram um número maior de parceiros ao longo da vida precisam ter um cuidado maior, porque existe uma possibilidade maior de contato com diferentes tipos de HPV. Muitas vezes a mulher acha que não está mais suscetível porque está em um relacionamento estável há anos, mas o vírus pode permanecer silencioso por muito tempo. Em alguns casos ele pode levar até dez anos para se manifestar, por isso o rastreio continua sendo fundamental.”



