A retirada do ex-prefeito de Petrolina Miguel Coelho (União Brasil) da disputa pelo Senado voltou ao centro do debate político durante a sessão desta quinta-feira (3) na Câmara Municipal. O assunto provocou um confronto entre vereadores da base do prefeito Simão Durando, com acusações de traição, críticas à governadora Raquel Lyra (PSD) e uma defesa enfática da gestão estadual.
O debate começou quando Gabriel Menezes (PSD) usou a tribuna para manifestar frustração com a condução das articulações políticas que terminaram com Miguel fora da chapa governista para o Senado. O vereador responsabilizou Raquel Lyra pelo desfecho e afirmou que integrantes do próprio grupo político teriam recebido da governadora a garantia de que o ex-prefeito seria candidato.
“Quatro dias antes daquela palhaçada que houve em Recife, conversando particularmente com a enganadora Raquel Lyra, perguntaram: ‘Raquel, e Miguel?’. E ela disse: ‘Eu sou uma mulher de palavra. Miguel é meu senador’. Depois, a gente sabe o que aconteceu”, declarou.
Gabriel também reafirmou que, apesar de integrar a bancada de apoio ao prefeito Simão Durando na Câmara, votará em João Campos (PSB) para o Governo de Pernambuco. “Embora vote em Lucas Ramos para deputado federal, embora vote em Elismar Gonçalves para deputado estadual e embora vote em João Campos para governador de Pernambuco, eu continuo integrando — e me orgulho disso — a base do prefeito Simão Durando”, afirmou.
Ao defender João Campos, Gabriel associou o atual prefeito do Recife à memória política do ex-governador Miguel Arraes e afirmou ter encontrado apoio ao socialista na região de Rajada. “Na região do Satisfeito II, o povo tem gratidão a Miguel Arraes. E lá tem voto de Miguel Arraes que vai ser descarregado no seu bisneto, João”, disse.
A afirmação provocou a reação de Manoel da Acosap, que corrigiu Gabriel sobre a chegada da energia elétrica às comunidades de Satisfeito I, Satisfeito II e Caldeirão. Segundo Manoel, a eletrificação das localidades ocorreu por meio da CERPEL, durante a gestão de Fernando Bezerra Coelho na Prefeitura de Petrolina. “A energia do Satisfeito foi colocada pela CERPEL, uma cooperativa, pelo prefeito Fernando Bezerra Coelho. Satisfeito I, Satisfeito II e Caldeirão”, afirmou.
Manoel reconheceu a importância de Miguel Arraes para a eletrificação rural de Pernambuco, mas sustentou que o caso citado por Gabriel tinha outra origem. Em seguida, ampliou o debate e afirmou que os vereadores deveriam ter cautela ao falar em traições políticas. “O discurso do senhor é muito bom, mas nós, vereadores, sofremos com a traição dos grandes. E os pequenos têm uma escadinha. Eu sou fã de Eduardo Campos, mas Eduardo Campos traiu João Lyra e traiu Fernando Bezerra Coelho também, que era para ser o escolhido como candidato a governador e não foi”, declarou.
Gabriel respondeu insinuando que a posição de Manoel estava relacionada à orientação de suas lideranças políticas. “Eu entendo que o senhor tem os seus líderes e os segue. Eu entendo que, se Miguel e o grupo do prefeito Simão estivessem marchando com João, o senhor talvez nem me interrompesse hoje. Eu sei que existem lideranças, assim como existem os liderados”, rebateu.
Aero Cruz também entrou no debate e procurou retirar de Raquel Lyra a responsabilidade direta pela exclusão de Miguel da chapa. O vereador afirmou que a governadora tentou viabilizar a candidatura, mas encontrou resistência dentro da federação União Progressista, comandada nacionalmente pelo deputado federal Eduardo da Fonte. “A governadora Raquel Lyra fez todo o possível, todas as suas tentativas, para que emplacasse Miguel Coelho. Isso ela fez aqui, isso ela fez em Brasília, isso ela articulou”, assegurou.
Para Aero, a insatisfação deveria estar relacionada à forma como a decisão foi comunicada, e não a uma suposta falta de empenho da governadora. “Podemos ficar chateados pela condução, pela forma como foi feita, se foi atropelada, se deveria ter uma conversa melhor. Agora, não podemos, em momento algum, dizer que a governadora não tentou emplacar o nosso Miguel Coelho como senador”, afirmou.
O vereador aproveitou para defender a atuação do Governo do Estado no Sertão, citando investimentos em saúde, educação e segurança pública. “A gente está vendo o que tem chegado ao interior e ao Sertão, que há muito tempo não chegava. A prova disso é a maternidade de Serra Talhada, é o IML de Serra Talhada, são as unidades de saúde e também as escolas”, declarou.
A reação mais acalorada partiu de Ronaldo Silva, que fez uma defesa contundente de Raquel Lyra e questionou a autoridade política de Gabriel para falar sobre traição. Ronaldo lembrou a saída de Gabriel do bloco de oposição ao prefeito Simão Durando, apesar de ele ter sido eleito por uma legenda que, naquele momento, fazia oposição ao atual grupo governista. “O vereador que me antecedeu não tem a decência nem a moral para falar de traição. Respeite a governadora!”, disparou.
Ronaldo afirmou que Raquel encontrou o estado com problemas deixados pelos governos anteriores e citou obras e investimentos realizados em Petrolina. “A governadora já fez, em três anos e meio, o que o partido que Vossa Excelência defende não fez em vinte anos. Esta cidade de Petrolina tem, nesses três anos e meio, investimentos de mais de R$ 350 milhões”, declarou.
Entre as ações mencionadas, o vereador citou as obras nas rodovias PE-638 e PE-639, a implantação de escolas, investimentos na Compesa e estruturas ligadas à segurança pública. “Isso é o trabalho de uma governadora que é séria, que trata os equipamentos e os recursos do governo com seriedade. Não queira chamar, não queira rotular a nossa governadora de enganadora, não”, afirmou.
Ronaldo também argumentou que a escolha do candidato ao Senado não dependia exclusivamente de Raquel Lyra. “O ex-prefeito Miguel Coelho sabia muito bem que não era fácil, porque ele estava em uma federação. E não é Raquel Lyra quem manda na federação. Quem manda são os membros da federação e, principalmente, o seu presidente, Eduardo da Fonte. A governadora trabalhou até os cinquenta minutos do segundo tempo para emplacar Miguel Coelho como candidato a senador. Não foi por falta de vontade e de trabalho da governadora. Ele sabe muito bem disso. O grupo dele sabe muito bem disso”, concluiu.
O embate mostrou que, mesmo entre vereadores que integram a base do prefeito Simão Durando, a sucessão estadual e a retirada de Miguel Coelho da corrida pelo Senado continuam provocando divisões. Enquanto Gabriel Menezes responsabiliza Raquel Lyra e anuncia apoio a João Campos, aliados da governadora defendem que a decisão foi tomada dentro da federação partidária e que ela tentou, até o fim, preservar a candidatura do ex-prefeito em meio a boatos de que Menezes não estaria sozinho no voto a Campos, foi apenas o único a assumir publicamente.



