A Câmara de Vereadores de Petrolina aprovou, nesta terça-feira (12), as prestações de contas dos ex-prefeitos Miguel Coelho e Simão Durando referentes aos exercícios de 2021, 2022 e 2023. Os três projetos de decreto legislativo receberam voto contrário apenas do vereador Gilmar Santos, que usou seu discurso para justificar sua posição com base nas ressalvas apontadas pelo Tribunal de Contas do Estado de Pernambuco (TCE-PE) e também para responder, em tom duro, a críticas feitas na sessão anterior.
Foram aprovados o Projeto de Decreto Legislativo nº 032/2026, sobre as contas de 2021 de Miguel Coelho; o Projeto de Decreto Legislativo nº 033/2026, sobre as contas de 2022 de Miguel Coelho e Simão Durando; e o Projeto de Decreto Legislativo nº 034/2026, referente às contas de 2023 de Simão Durando. Todos passaram pelo plenário com o mesmo placar: 19 a 1.
Ao defender o voto contrário, Gilmar disse reconhecer o trabalho do TCE, mas afirmou que não se sentia em condições políticas e morais de aprovar as contas diante da realidade enfrentada por várias comunidades de Petrolina. Ao detalhar tecnicamente cada item das ressalvas, o vereador associou sua posição aos problemas apontados pelo tribunal e ao que chamou de abandono de bairros da cidade.
“Quero parabenizar o Tribunal de Contas. Mas vou dizer ao Tribunal de Contas que eu não posso aprovar essas contas quando o Jardim Petrópolis está abandonado, quando o Antônio Cassimiro, Dom Avelar, Terras do Sul estão abandonados, sem saneamento, Henrique Leite sem saneamento, os projetos de irrigação abandonados”, afirmou.
Na mesma fala, Gilmar citou uma fiscalização feita no N-9 e relatou tensão durante a visita. “Estive no N-9 ontem para fazer fiscalização, tive que chamar a polícia, porque a servidora estava tentando impedir esse vereador de cumprir o seu papel”, disse.
Ao ampliar a crítica, o parlamentar afirmou que não votaria favoravelmente enquanto, segundo ele, a população continuar sofrendo com ausência de serviços básicos. “Nós não podemos aprovar essa prestação do prefeito Miguel, do prefeito Simão, quando o nosso povo está desesperado, seja por falta de saúde, por falta de educação, por falta de saneamento, por falta de assistência social”, declarou.
Gilmar também aproveitou o momento para responder às provocações feitas na sessão passada, quando foi alvo de críticas do vereador Wenderson Batista. Sem citar nominalmente o colega, mas em referências que foram entendidas no plenário como direcionadas a ele, Gilmar afirmou: “Tem gente que não consegue ser Coelho e vai ser vassalo. Vai ser puxa-saco. Vai ser babão. Tem gente que não consegue ser vereador e vai ser suplente”.
Na sequência, fez outra referência velada: “Tem gente que tem inveja, né? Porque Bezerra, Coelho, são dois animais. E aí tem gente que aqui não é nem animal, é só o pé e vem ciscar para atacar o Partido dos Trabalhadores e o governo do presidente Lula”. A fala foi interpretada por vereadores como uma resposta indireta a Wenderson Batista, conhecido politicamente pelo apelido de Pé de Galo, embora Gilmar não tenha citado nome.
O líder do governo na Casa, Diogo Hoffmann, rebateu a posição do petista e defendeu que o plenário seguisse o parecer do TCE, como já ocorreu em outras análises de contas de ex-prefeitos de Petrolina. Segundo ele, a existência de ressalvas não impede a aprovação.
“Nós estamos aqui votando contas de prefeitos que tiveram a conta aprovada pelo Tribunal de Contas com ressalva. Como do ex-prefeito Júlio Lóssio, que nós aprovamos aqui, do ex-prefeito Odacy Amorim, que nós aprovamos aqui. O fato de ter ressalvas não impede a aprovação”, afirmou.
Diogo disse que não caberia desqualificar o tribunal. “Eu não vou desqualificar o trabalho do Tribunal de Contas. Se o Tribunal de Contas disse que essas contas merecem ser aprovadas, eu acompanho o voto da comissão, mas acompanho também o voto do Tribunal de Contas”, declarou.
Na reta final do discurso, o líder do governo respondeu diretamente ao argumento político de Gilmar e puxou o debate para o cenário nacional. “O Tribunal de Contas da União recomendou a aprovação das contas do presidente Lula com ressalvas”, disse, acrescentando que, se fosse aplicada a mesma lógica de cobrança usada pela oposição local, o mesmo raciocínio deveria valer para o governo federal.
Já o líder da oposição, Ronaldo Silva, votou favoravelmente às contas, mas destacou que as ressalvas do tribunal precisam ser levadas a sério. Ele chamou atenção, principalmente, para os alertas sobre despesa com pessoal e atraso no repasse à Câmara.
“Quem tem que fazer análise mesmo, quem estudou para isso, quem é pago para isso, são os técnicos do Tribunal de Contas”, afirmou. Mas ponderou: “As observações têm que ser feitas”.
Ronaldo destacou que já havia alertado sobre o avanço de gastos com pessoal. “Esse vereador trouxe várias denúncias de contratações, de projeto de lei criando cargos e mais cargos. E aí chega o limite prudencial”, disse.
O vereador ainda classificou como grave o trecho do parecer que menciona atraso no repasse do duodécimo ao Legislativo. “A prefeitura deixou de repassar durante quatro meses o repasse da Câmara. Isso é crime, isso é improbidade administrativa”, afirmou.
A vereadora Maria Elena criticou a postura adotada por Gilmar durante o debate. Sem entrar no mérito técnico das contas, ela disse lamentar o que classificou como desrespeito a colegas e excesso de teatralização política.
“Eu fico tão triste quando eu vejo colegas vereadores de oposição, desde épocas passadas, o desrespeito com outros colegas”, afirmou. Em seguida, acrescentou: “No afã de aparecer, de lacrar, de ter mídia para as suas redes sociais, você desprezar, menosprezar colega, não cabe à gente isso”.
Maria Elena também saiu em defesa de Wenderson Batista, alvo indireto da fala de Gilmar. “Ele está aqui vereador, queira ou não queira. Ele é vereador como qualquer um dos nossos”, disse. E completou: “Eu gosto da sua simplicidade, eu gosto da sua fidelidade. Nós não estamos aqui como vassalos de ninguém não, mas se fosse falar de vassalo, aqueles vassalos são eles que não veem os defeitos”.
Wenderson Batista, por sua vez, devolveu as provocações sem citar Gilmar pelo nome, mas deixando claro o alvo político. Ele classificou como lamentável o comportamento de quem, segundo ele, usa o mandato para incentivar desinformação e desordem.
“É uma pena a gente ver aqui legislador ter comportamento de criança de quinta série”, afirmou. Logo depois, endureceu ainda mais: “Muitas vezes, com comportamento até de moleque”.
Wenderson também criticou, sem mencionar diretamente o colega, a atuação de quem, segundo ele, estimula invasões de terra e confusão social. “Eu nunca irei sair da Câmara, perder uma sessão, para instigar as pessoas com menos informação a invadir terrenos públicos. Eu jamais irei fazer isso”, disse.
Na sequência, subiu o tom: “Quem sai daqui da sessão para invadir terras na zona rural é ladrão, é vagabundo. E quem faz isso não é o nosso grupo político, não”.
Ao encerrar, Wenderson ainda fez uma defesa pessoal e eleitoral. “Eu tive 2.458 votos, com muito orgulho”, declarou, acrescentando que não comprou votos e que, se alguém tivesse provas em contrário, deveria apresentar.
A votação das contas acabou aprovada com folga, mas o debate político dominou a sessão. De um lado, Gilmar Santos usou as ressalvas do TCE como base para sustentar que não havia condições de aprovar as gestões de Miguel e Simão diante dos problemas enfrentados pela população. De outro, governistas e até parte da oposição sustentaram que o parecer técnico do tribunal recomendava a aprovação, ainda que com apontamentos e advertências formais.
Em resumo, segundo dados do TCE, as ressalvas das contas aprovadas foram:
em 2021, o maior peso esteve no Fundeb e na aplicação de recursos da educação;
em 2022, as ressalvas recaíram mais sobre planejamento orçamentário e controle contábil;
e, em 2023, o parecer reuniu questionamentos sobre orçamento, repasses à Câmara, previdência dos servidores e transparência da gestão.



