Ex-prefeito não confirmou candidatura a deputado federal, exaltou Fernando Filho e Juliana Chaparral e apresentou ao candidato do PL as lideranças que estariam em seu palanque para o Senado
Miguel Coelho voltou a falar publicamente sobre as eleições de 2026 nesta terça-feira (4), três dias depois de anunciar, por volta da 1h da manhã do sábado, 1º de agosto, a retirada de sua candidatura ao Senado. Cercado por integrantes de seu grupo político, o ex-prefeito de Petrolina declarou apoio a Mendonça Filho, confirmou que trabalhará pela reeleição da governadora Raquel Lyra e colocou à disposição do candidato do PL as lideranças que estariam em seu próprio palanque.
O gesto reorganiza parte importante do campo de centro-direita em Pernambuco. Ao retirar seu nome da disputa, Miguel havia deixado Eduardo da Fonte como único postulante ao Senado dentro da Federação União Progressista, formada pelo União Brasil e pelo PP. Agora, ao conduzir seu grupo para Mendonça, o ex-prefeito sinaliza que a desistência resultou na rejeição à candidatura de Dudu da Fonte.
Em seu pronunciamento, Miguel pulou algumas casas do tabuleiro. Não confirmou que será candidato a deputado federal ao lado do irmão, Fernando Filho, embora essa possibilidade tenha circulado intensamente nos bastidores. Em sua fala, concentrou-se na defesa das candidaturas proporcionais de seu grupo, reiterando o apoio a Fernando Filho e destacando também a candidatura de Juliana Chaparral à Câmara Federal.
Mais do que anunciar uma escolha pessoal, Miguel apresentou Mendonça às lideranças que integrariam a estrutura política de sua própria candidatura ao Senado. Foram citados prefeitos, parlamentares, candidatos e representantes de diferentes regiões do estado, incluindo o prefeito de Petrolina, Simão Durando, além dos prefeitos Fabinho Lisandro, de Salgueiro, e Evilásio Mateus, de Araripina, que não estavam presentes, mas autorizaram manifestações de apoio.
Miguel começou recordando que, durante a pré-campanha, havia estabelecido com Mendonça uma espécie de pacto de reciprocidade. Caso um dos dois se mostrasse mais viável eleitoralmente, o outro apoiaria sua candidatura. “Contei com o apoio de Mendonça durante esta pré-campanha. Ele também tinha o nome colocado e nós sempre pontuávamos bem nas pesquisas. Mendonça disse que, se eu me viabilizasse, poderia contar com o apoio dele e de todo o seu grupo político. Eu também havia dito que, se acontecesse o contrário, a reciprocidade seria verdadeira”, declarou.
Segundo Miguel, a retirada de sua candidatura abriu um espaço para que Mendonça se apresentasse como representante da centro-direita dentro do campo de apoio à governadora. “De sexta-feira para cá, diante de tudo o que aconteceu, entendemos que surgiu um espaço para que um representante da centro-direita pudesse disputar o Senado Federal dentro da base aliada da governadora Raquel Lyra. Esse espaço existe e a viabilidade é mais do que real”, afirmou.
O presidente estadual do União Brasil procurou deixar claro que o apoio não estaria baseado apenas em pesquisas ou conveniências eleitorais. Miguel destacou a trajetória de Mendonça como deputado estadual, deputado federal, vice-governador, governador e ministro da Educação. “Não se trata apenas de uma questão de espaço político ou de viabilidade eleitoral. Trata-se também de história, personalidade e caráter. Estamos diante de uma pessoa com mais de 30 anos de vida pública dedicada a Pernambuco”, disse.
Em um discurso carregado de referências à confiança pessoal, Miguel afirmou que ninguém poderia questionar a postura do novo aliado. “Ninguém pode colocar uma vírgula fora do lugar quando se fala da retidão, da postura e do caráter do nosso ex-ministro, ex-governador e futuro senador Mendonça Filho”, declarou.
O ex-prefeito também fez questão de demonstrar que não entregava apenas seu voto. Prometeu mobilizar sua estrutura política em todas as regiões de Pernambuco. “De onde estivermos — no Sertão, no Agreste, na Zona da Mata ou na Região Metropolitana —, todas as pessoas vinculadas ao nosso grupo, que confiaram em mim e nas nossas propostas, terão a nossa orientação, o nosso apoio e o nosso empenho. Nós apoiamos e endossamos a sua candidatura”, afirmou.
Miguel reafirma apoio a Raquel
Ao mesmo tempo em que virou as costas para Eduardo da Fonte, Miguel evitou qualquer gesto de rompimento com a governadora. Pelo contrário, reiterou que participará ativamente da campanha de Raquel Lyra.
“Também reafirmamos o nosso apoio à governadora Raquel Lyra. Vamos votar em Raquel e fazer campanha pela sua reeleição. Acreditamos que ela está no caminho certo, e todos os indicadores demonstram isso”, declarou.
Miguel voltou a justificar a retirada de sua candidatura como um gesto de desprendimento político. “Sempre disse que um projeto individual não pode se sobrepor a um projeto maior. Estou aqui dando mais uma demonstração disso”, completou.
Mendonça agradece apoio e relembra aliança de 2022
Ao receber o apoio, Mendonça Filho agradeceu a Miguel, a Fernando Filho, a Antônio Coelho, a Chaparral, a Juliana e aos prefeitos e vereadores presentes. O candidato do PL classificou o grupo como uma força política de grande expressão no estado.
“São pessoas do bem, que fazem a política do bem. Esse apoio é um grande estímulo e aumenta ainda mais a minha disposição para assumir esta candidatura com dedicação, força e responsabilidade”, afirmou.
Mendonça também relembrou que apoiou Miguel na disputa pelo Governo de Pernambuco em 2022. Segundo ele, o apoio foi oferecido sem qualquer exigência de vantagem pessoal ou compensação política. “Trabalhei para que Miguel pudesse ser candidato ao Governo de Pernambuco em 2022. Antes mesmo daquela eleição, já enxergava a ascensão de um jovem político que se revelou um dos maiores talentos do nosso estado, a partir de Petrolina. Apoiei Miguel sem condicionar esse apoio a qualquer vantagem de ordem pessoal. Contribuí para a candidatura dele porque acreditava naquele projeto”, prosseguiu.
Mendonça afirmou ainda que o projeto de Miguel não foi encerrado, mas apenas adiado. “Eu disse a ele: Miguel ainda será governador de Pernambuco. Muitas vezes, somos obrigados a adiar projetos. Eu mesmo adiei os meus em várias oportunidades, inclusive o projeto de disputar o Senado, há oito anos”, afirmou.
Saída do União e alfinetadas em Eduardo da Fonte
Uma das partes mais políticas do discurso ocorreu quando Mendonça explicou as razões que o levaram a deixar o União Brasil e ingressar no PL, em abril deste ano. A mudança encerrou uma trajetória partidária de mais de quatro décadas, iniciada no PFL, passando pelo Democratas e chegando ao União Brasil.
Mendonça afirmou que discordava da formação da Federação União Progressista, especialmente pela dificuldade de reunir, sob uma mesma direção, dois partidos com culturas e métodos políticos distintos. “Tivemos alguns desencontros partidários e eu tomei um rumo diferente. Isso aconteceu porque eu discordava da federação que estava sendo constituída. Eu disse a Miguel e a Fernando Filho que, se já era complexa a convivência dentro de um único partido, seria ainda mais difícil reunir duas legendas, com culturas políticas muito distintas, em uma federação. A governança partidária ficaria muito mais complicada”, continuou.
Antes de deixar o União Brasil, Mendonça chegou a cobrar formalmente das direções nacionais do União e do PP uma definição sobre o posicionamento da federação em Pernambuco. Naquele momento, também havia a previsão de que Eduardo da Fonte assumiria a presidência estadual da nova estrutura partidária.
Sem mencionar da Fonte nominalmente, Mendonça fez uma comparação alfinetando o estilo de condução política do presidente estadual do PP. “Na política, a palavra precisa ter valor. A palavra de Fernando e a palavra de Miguel valem muito. Quando eles assumem um compromisso, não é necessário colocar no papel. Eu sei que irão cumprir. Eles também sabem que, da minha parte, funciona da mesma forma”, afirmou.
A sequência do discurso reforçou o contraste. Mendonça afirmou que sempre fez política baseado em compromissos, previsibilidade e confiança. “Sempre fiz política dessa maneira. Nunca procurei o caminho mais fácil na minha vida”, declarou.
A crítica não foi explícita, mas o endereço político ficou evidente pelo contexto: Mendonça deixou o União Brasil justamente quando a formação da federação ampliaria o poder de Eduardo da Fonte sobre as decisões partidárias em Pernambuco. A disputa por espaços e o desconforto com a futura governança da União Progressista estiveram entre os fatores que antecederam sua filiação ao PL.
“Eu não procurei esta candidatura”
Mendonça também apresentou sua entrada na disputa pelo Senado como resultado das circunstâncias políticas abertas pela retirada de Miguel Coelho. Disse que não buscou a candidatura, mas que decidiu aceitá-la por enxergar um campo compatível com sua trajetória.
“Eu não procurei esta candidatura ao Senado. Ela se colocou diante de mim, em um campo absolutamente aberto para aquilo em que acredito: fazer política com decência e oferecer uma boa representação ao Estado de Pernambuco”, afirmou.
O candidato revelou que enfrentou resistência da própria família para entrar em uma nova campanha. “Tomei essa decisão até enfrentando certa resistência dentro de casa. Minha esposa e meus filhos estão muito machucados por tantas jornadas difíceis que já enfrentamos na vida pública. Mas eu sou assim: quando alguma coisa toca o meu coração e a minha alma, sigo em frente”, declarou.
Apesar das dificuldades, Mendonça demonstrou confiança na nova composição política.
“Vou abraçar esta candidatura com a absoluta convicção de que construiremos um projeto vitorioso. Esta campanha será diferente. Vamos construir um movimento que marcará a história política de Pernambuco”, disse.
Embora esteja agora filiado ao PL, partido que não formalizou apoio a uma candidatura ao Governo de Pernambuco, Mendonça também reafirmou seu compromisso com a reeleição de Raquel Lyra. “Todos sabem que defendo, desde o primeiro momento, a reeleição da governadora Raquel Lyra e que continuarei apoiando a sua candidatura”, afirmou.
O parlamentar, contudo, indicou que buscará apoios para além dos limites da chapa oficial da governadora e do próprio PL. “O meu caminho será o da construção de pontes. Quero conversar com diferentes forças políticas e oferecer a Pernambuco aquilo que a população deseja: um Senado de qualidade, à altura da tradição política do nosso estado”, declarou.
Mendonça citou Nilo Coelho, Jarbas Vasconcelos e Marco Maciel como referências da representação pernambucana no Senado. “É essa tradição que pretendo honrar. Assumo esse compromisso diante de todos vocês”, afirmou.
No encerramento, pediu empenho às lideranças incorporadas à campanha e reconheceu que terá pouco tempo para estruturar uma candidatura estadual. “O prazo é curto, mas temos a força política que estamos reunindo, a nossa credibilidade, a nossa história e, sobretudo, o compromisso que assumimos com o Estado de Pernambuco. Tenho certeza de que celebraremos a vitória deste conjunto de forças, a vitória da governadora Raquel Lyra e a minha vitória como senador da República por Pernambuco”, concluiu.



