Com remunerações que, em alguns casos, ultrapassam o teto do funcionalismo público, presidentes nacionais de partidos políticos receberam juntos R$ 2,95 milhões ao longo de 2025. O maior pagamento chegou a R$ 630,5 mil no ano, equivalente a uma média de R$ 52,5 mil por mês.
O levantamento, realizado pelo g1 com base nas prestações de contas apresentadas ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE), analisou as despesas das direções nacionais dos 30 partidos registrados no país. Foram encontrados pagamentos relacionados a salários, despesas com pessoal ou serviços técnico-profissionais para dez dirigentes.
Do total repassado, 96% — cerca de R$ 2,83 milhões — vieram do Fundo Partidário, formado principalmente por recursos públicos do Orçamento da União. Outros R$ 117,9 mil foram pagos com recursos próprios ou provenientes de outras fontes das legendas.
Presidente do PRD lidera ranking
O maior beneficiário foi Ovasco Roma Altimari Resende, presidente nacional do Partido da Renovação Democrática (PRD). A legenda declarou o pagamento de R$ 630,5 mil ao dirigente em 2025.
Desse valor, R$ 288,8 mil foram registrados como salários e ordenados, enquanto outros R$ 341,8 mil apareceram como serviços técnico-profissionais. Todo o montante foi custeado pelo Fundo Partidário.
Dividido pelos 12 meses do ano, o pagamento representa aproximadamente R$ 52,5 mil mensais, valor superior ao teto constitucional do serviço público, atualmente fixado em R$ 46.366,19.
Ovasco afirmou que trabalha há 23 anos na direção partidária e administra a estrutura nacional do PRD, a fundação ligada à legenda, o diretório de São Paulo e a federação formada com o Solidariedade.
Segundo o dirigente, ele também responde por aproximadamente 3,6 mil processos relacionados ao partido. Ovasco declarou que passou a receber pró-labore em 2008, inicialmente no valor de R$ 6 mil, depois de abandonar outras atividades para se dedicar integralmente à gestão partidária.
O PRD registrou R$ 42,6 milhões em despesas durante 2025. A remuneração de seu presidente representou 1,38% desse total.
José Luiz Penna recebeu mais de R$ 500 mil
Na segunda posição aparece José Luiz Penna, presidente nacional do Partido Verde (PV). Ele recebeu R$ 501,4 mil durante 2025, integralmente financiados pelo Fundo Partidário.
Foram registrados 16 pagamentos, com valores que variaram entre R$ 10 mil e R$ 47,8 mil por mês. As despesas foram classificadas como salário, férias e 13º salário.
O Diretório Nacional do PV teve R$ 12,9 milhões em despesas no ano. Os pagamentos destinados ao dirigente corresponderam a 4,65% do total.
Em nota, o partido informou que os valores destinados a Penna são submetidos à avaliação da Executiva Nacional e integram os procedimentos internos de governança e transparência da legenda.
Valdemar Costa Neto recebeu R$ 404,7 mil
O presidente nacional do Partido Liberal (PL), Valdemar Costa Neto, recebeu R$ 404,7 mil em 2025. Os 12 repasses mensais ficaram entre R$ 32,1 mil e R$ 33,9 mil.
O PL não classificou os pagamentos como salário, mas como serviços técnicos e profissionais. Todo o dinheiro também teve origem no Fundo Partidário.
As despesas do Diretório Nacional do PL chegaram a R$ 155 milhões no período. Os pagamentos feitos a Valdemar representaram 0,41% desse montante.
No mesmo ano, o ex-presidente Jair Bolsonaro recebeu R$ 460,2 mil da legenda, enquanto Michelle Bolsonaro recebeu R$ 411 mil. Os dois valores, porém, não foram incluídos no ranking de presidentes partidários.
O PL não respondeu aos questionamentos apresentados pelo g1 até a publicação da reportagem.
Novo pagou R$ 337 mil ao presidente
Eduardo Ribeiro, presidente nacional do Novo, recebeu R$ 337 mil em salários e ordenados. Os pagamentos ocorreram entre janeiro e outubro de 2025 e ficaram, em geral, próximos de R$ 33,9 mil mensais.
O valor foi integralmente pago com recursos do Fundo Partidário e representou 1,56% dos R$ 34,2 milhões em despesas declaradas pela direção nacional da legenda.
O Novo informou que, desde 2023, exige dedicação exclusiva de seus dirigentes, substituindo o modelo voluntário anteriormente utilizado. Segundo o partido, a remuneração foi aprovada em Convenção Nacional e faz parte do processo de profissionalização da gestão.
Renata Abreu recebeu R$ 322,1 mil
Presidente nacional do Podemos e deputada federal por São Paulo, Renata Abreu recebeu R$ 322,1 mil em pagamentos classificados como serviços técnico-profissionais.
Os repasses começaram em R$ 25 mil mensais e chegaram a R$ 32,3 mil nos últimos meses de 2025. Todo o valor foi financiado pelo Fundo Partidário.
A direção nacional do Podemos registrou R$ 58,6 milhões em despesas no ano. A remuneração de Renata correspondeu a 0,69% do total. A legenda não se manifestou.
Carlos Lupi recebeu R$ 270 mil
O PDT pagou R$ 270 mil a Carlos Lupi entre maio e dezembro de 2025. Os repasses foram classificados como outras despesas com pessoal e também custeados pelo Fundo Partidário.
Na maioria dos meses, Lupi recebeu R$ 30 mil. Em agosto, o pagamento chegou a R$ 45 mil. Em dezembro, foram registrados dois repasses, de R$ 15 mil e R$ 30 mil.
O partido declarou ainda R$ 6,2 mil em despesas de viagens e transportes no nome do dirigente, mas esses valores não foram considerados como remuneração.
Segundo o PDT, o pagamento é definido pela Executiva Nacional conforme o estatuto e as atividades desempenhadas no cargo.
Edinho Silva recebeu R$ 201 mil por trabalho no PT
Eleito presidente nacional do PT em julho de 2025, Edinho Silva recebeu R$ 201 mil entre agosto e dezembro por atividades prestadas à legenda.
Do total, R$ 191 mil foram classificados como serviços técnico-profissionais, e R$ 10 mil como despesas com pessoal. Os pagamentos mensais variaram entre R$ 30 mil e R$ 38 mil.
Cerca de R$ 122,4 mil vieram do Fundo Partidário, enquanto R$ 78,6 mil tiveram origem em outras fontes do PT.
A prestação de contas registrou ainda R$ 38,4 mil em gastos vinculados ao dirigente, incluindo R$ 26,8 mil com aluguel, R$ 5,6 mil com condomínio, R$ 3,4 mil com alimentação, R$ 2,1 mil com IPTU e R$ 484 com seguro. Esses valores não foram considerados remuneração.
Em nota, o PT afirmou que os pagamentos e reembolsos seguem as regras da Justiça Eleitoral e estão relacionados às atividades institucionais exercidas por Edinho no Brasil e no exterior.
PSOL, Rede e Unidade Popular
A presidente nacional do PSOL, Paula Coradi, recebeu R$ 146,8 mil em 2025. Foram 11 pagamentos de R$ 11,3 mil e um de R$ 22,6 mil em dezembro. O dinheiro veio integralmente do Fundo Partidário.
O PSOL afirmou que Paula trabalha em tempo integral para a legenda e é remunerada como profissional autônoma, com recolhimento de Imposto de Renda e contribuição previdenciária.
Paulo Lamac, presidente da Rede Sustentabilidade, recebeu R$ 95,5 mil. Os pagamentos foram de R$ 15 mil mensais e custeados pelo Fundo Partidário.
Na Unidade Popular, Leonardo Péricles recebeu R$ 39,3 mil. Os valores variaram entre R$ 99 e R$ 3.300 mensais e foram pagos com recursos próprios da sigla, sem utilização do Fundo Partidário.
Apesar de ser o menor valor nominal do ranking, a remuneração de Leonardo representou 35% das despesas totais da direção nacional da UP, que somaram R$ 112,4 mil em 2025.
Legislação não estabelece teto específico
Especialistas ouvidos pelo g1 explicaram que a legislação brasileira não determina um limite específico para a remuneração dos presidentes de partidos.
A Lei dos Partidos Políticos permite que o Fundo Partidário seja usado no pagamento de funcionários e na contratação de serviços. Nas direções nacionais, os gastos com pessoal não podem ultrapassar 50% dos recursos recebidos pelo fundo. Para os diretórios estaduais e municipais, o limite é de 60%.
O teto constitucional de R$ 46.366,19, equivalente ao salário dos ministros do Supremo Tribunal Federal, não se aplica automaticamente aos dirigentes partidários, pois eles não são considerados agentes públicos.
Dos 30 presidentes pesquisados, não foram encontrados pagamentos diretamente associados aos nomes de 18 dirigentes. O levantamento ressalva, entretanto, que isso não significa necessariamente ausência de remuneração, já que algumas despesas podem ser registradas em nome de empresas, escritórios ou fornecedores vinculados aos presidentes.
Fonte: g1, com base nas prestações de contas anuais de 2025 apresentadas pelas direções nacionais dos partidos ao Tribunal Superior Eleitoral.



