Petrolina entra em uma fase decisiva no debate sobre água e saneamento. Enquanto o Governo de Pernambuco anuncia um pacote de R$ 100 milhões para ampliar o abastecimento, a assinatura do contrato de concessão com a Vita Sertão inaugura um novo modelo de gestão que ainda levanta dúvidas sobre prazos, execução e resultados concretos.
O tema foi discutido nesta terça-feira (7), em entrevista ao programa Nossa Voz, com o secretário executivo de Saneamento do estado, Artur Coutinho. No centro da discussão está a cobrança por respostas: o que de fato saiu do papel desde os anúncios feitos em 2024 e quando a população deve sentir melhora no fornecimento de água.
Logo no início da entrevista, o secretário classificou o momento como um marco para a região, mas reconheceu que as mudanças ainda estão em fase inicial.
“Hoje a gente tem um dia que é histórico para Petrolina e para toda a região. A governadora Raquel Lyra, junto com os prefeitos, assina o contrato de concessão. Nesse novo modelo, a Compesa passa a focar na produção de água. Petrolina está recebendo o maior investimento da sua história em abastecimento, com cerca de 100 milhões de reais, e a principal obra é a ETA São Francisco, que deve aumentar em torno de 40% a oferta de água no município.”
Apesar do volume anunciado, parte das intervenções ainda não foi concluída. A principal obra citada, a nova estação de tratamento, segue em andamento. Outras ações, como recuperação de estruturas existentes e ampliação de sistemas, também avançam em ritmos diferentes.
“Além da ETA São Francisco, a gente tem a recuperação da ETA Centro, que deve voltar a produzir 570 litros por segundo. Também existem ações em municípios vizinhos, como Lagoa Grande, com novas adutoras e duplicações de sistema. É um conjunto de obras estruturantes que vêm sendo executadas para aumentar a produção de água.”
A expansão da oferta tenta acompanhar o crescimento acelerado da cidade, que, segundo o próprio governo, teve aumento populacional significativo nos últimos anos, principalmente nas áreas periféricas, onde o abastecimento é mais instável.
“Petrolina cresceu cerca de 50% em população nos últimos 15 anos. Esse aumento de 40% na oferta de água foi pensado considerando esse crescimento, principalmente nas periferias. Mas a gente sabe que não é só produzir mais água. É preciso reduzir perdas, substituir redes antigas e modernizar a distribuição.”
É nesse ponto que entra a concessão. Pelo modelo adotado, a Compesa e o Estado permanecem responsáveis pela captação e tratamento da água, enquanto a Vita Sertão assume a distribuição e o esgotamento sanitário.
“Da produção até o tratamento, a responsabilidade continua sendo do Estado. A partir daí, a água é entregue à concessionária, que passa a cuidar da distribuição, da parte comercial e também de todo o sistema de esgoto. Esse é um modelo que já vem sendo adotado em outros estados.”
A promessa é que a atuação conjunta, aumento da produção e melhoria na distribuição, reduza o rodízio e amplie o acesso ao serviço. Ainda assim, o próprio secretário admite que os resultados não serão imediatos em todas as áreas.
“A gente acredita que já nesse primeiro ano a população deve sentir alguma melhoria, principalmente com ações emergenciais de combate a perdas e recuperação de sistemas. Mas as obras estruturantes levam mais tempo, não ficam prontas da noite para o dia.”
Outro ponto sensível é a divisão dos investimentos dentro do bloco regional, que reúne 24 municípios. Questionado sobre o risco de Petrolina perder protagonismo, o secretário afirmou que a cidade concentra a maior parte dos recursos.
“Dos 3 bilhões e 200 milhões previstos para a microrregião, mais de 1 bilhão está concentrado em Petrolina. Além disso, o município conseguiu incluir praticamente 100% do seu território no contrato, incluindo zonas rurais e agrovilas.”
A universalização do saneamento, prevista no novo marco legal até 2033, aparece como meta central do projeto. No caso do esgotamento sanitário, o objetivo é alcançar 90% de cobertura , um desafio ainda distante da realidade atual.
“A maior parte dos investimentos vai para o esgotamento sanitário. Hoje Petrolina ainda tem uma demanda muito grande nessa área. A ideia é avançar tanto na zona urbana quanto nas áreas rurais, de forma integrada.”
Enquanto isso, intervenções seguem em cidades vizinhas, como Cabrobó e Santa Maria da Boa Vista, onde há obras em andamento ou previstas para licitação. A estratégia do governo é tentar equilibrar demandas regionais com as urgências locais.
Ao final da entrevista, o secretário foi questionado sobre prazos mais concretos para a população. A resposta indica um cenário de transição, com efeitos graduais.
“A gente tem um contrato sendo assinado agora, com um período de até seis meses de transição. A concessionária pode assumir ainda este ano. Já existem ações emergenciais sendo executadas, principalmente no combate a perdas e substituição de redes. Isso deve trazer impactos mais rápidos, mas a solução completa é um processo de médio e longo prazo.”
Para quem vive a rotina de falta d’água em diferentes bairros da cidade, a expectativa segue acompanhada de cautela: entre anúncios, obras em andamento e mudanças na gestão, o desafio continua sendo transformar promessa em torneira cheia.



