União Brasil tem Miguel e Fernando Filho dividindo votos, unindo palanque e mirando duas cadeiras em Brasília

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Primeiro grande ato de rua do União Brasil mostrou como o grupo pretende acomodar as duas candidaturas à Câmara Federal. Fernando Filho chorou ao falar do irmão, Miguel admitiu que queria disputar outro cargo, Fernando Bezerra pediu votos para os dois e Raquel Lyra resumiu a estratégia: “A gente se divide para se multiplicar”

O primeiro grande ato de campanha do grupo liderado pelos Bezerra Coelho em Petrolina, realizado na noite deste domingo (16), teve um significado que foi além do lançamento das candidaturas proporcionais do União Brasil. Diante da governadora e candidata à reeleição Raquel Lyra (PSD), do candidato ao Senado Eduardo da Fonte (PP) e também de Mendonça Filho (PL), o palanque mostrou, pela primeira vez já em plena campanha, como ficou acomodada a articulação que movimentou a política pernambucana nas últimas semanas.

A escolha de Eduardo da Fonte como candidato ao Senado pela Federação União Progressista encerrou o projeto de Miguel Coelho para a Casa Alta e produziu uma situação inédita dentro da principal força política de Petrolina: Miguel e Fernando Filho agora disputam simultaneamente vagas na Câmara dos Deputados.

O tema atravessou praticamente todos os principais discursos da noite.

Fernando Filho protagonizou um dos momentos mais emocionados. Visivelmente comovido e chegando às lágrimas, o deputado federal falou sobre a necessidade de organizar as bases para que a entrada de Miguel na disputa não transforme os dois irmãos em adversários dentro de Petrolina. “Eu não vou disputar voto com Miguel. Eu não vou disputar voto com Miguel. Eu não tenho essa pretensão”, afirmou.

Fernando reconheceu a força eleitoral do irmão na cidade e disse que pretende ampliar a campanha em municípios e regiões onde acumulou relações e serviços prestados ao longo dos cinco mandatos. “Miguel vai fazer uma campanha como eu jamais poderia fazer em Petrolina. Nós vamos fazer uma campanha de prefeito dentro da campanha de deputado. Miguel vai receber de Petrolina o voto que Pernambuco inteiro queria dar a ele”, declarou.

Foi nesse contexto que o deputado apresentou, buscando um tom bem-humorado, uma espécie de fórmula para organizar os votos das famílias ligadas ao grupo. “Todo mundo está me perguntando: como é que a gente vai fazer? Tem cinco votos em casa? São quatro de Miguel e um de Fernando Filho. Quatro de Miguel, um de Fernando Filho”, disse.

Fernando Filho sinalizou ainda que buscará compensar a presença mais forte de Miguel em Petrolina intensificando a campanha fora do município. “Eu vou estar menos por aqui. […] Eu vou atrás de novos ares”, afirmou. Ao falar do vínculo político com a cidade, lembrou uma conversa recente com o pai e Miguel. “Papai virou pra gente e disse: ‘Miguel, volte pra onde a terra é firme, pro nosso porto seguro’. E o nosso porto seguro sempre foi e sempre será a cidade de Petrolina.”

Miguel Coelho, no entanto, tratou de afastar qualquer ideia de uma divisão rígida da base. “Não tem esse negócio de dividir quatro por um. Deixe o coração decidir”, respondeu durante seu discurso.

O ex-prefeito fez uma defesa enfática da trajetória do irmão. “Você não é apenas meu irmão mais velho. Você é meu professor na vida e vai ser meu professor em Brasília, como deputado federal. Eu espero poder ter a competência de trilhar o mesmo caminho que você. Hoje é respeitado como um dos melhores deputados federais do Brasil e Petrolina se orgulha do seu filho e da sua história”, disse.

Mas Miguel também falou abertamente sobre o caminho que o levou até a candidatura à Câmara. Sem esconder a frustração com o desfecho da composição majoritária, admitiu que imaginava estar naquela noite lançando outro projeto. “É verdade que a noite de hoje, no meu íntimo, Dudu, eu queria estar disputando um outro cargo”, declarou.

Em seguida, mandou uma mensagem direta aos apoiadores que acompanharam suas tentativas de chegar ao Governo de Pernambuco, em 2022, e ao Senado, em 2026. “Esse sonho de 2022 e o sonho de 2026 não foram interrompidos. Eles estão adiados”, afirmou.

Ao mesmo tempo, Miguel oficializou no palanque o apoio a Eduardo da Fonte e lembrou que havia assumido o compromisso de apoiar quem fosse escolhido dentro da composição da federação. “Dudu, nós fizemos um ato na sede do PP, onde você também se lançava pré-candidato ao Senado. E, na minha fala, lhe disse que quem fosse escolhido eu estaria pronto para apoiar. Seja bem-vindo a Petrolina, Dudu. Você vai ser o nosso senador. Você terá o nosso apoio”, disse.

O ex-prefeito também deixou claro que pretende transformar a candidatura federal em um novo projeto de dimensão estadual. “Eu chego não é pra dividir, nem pra separar. Eu chego pra unir, eu chego pra fortalecer, eu chego pra impulsionar, eu chego pra fazer Petrolina crescer ainda mais, para fazer do Sertão uma terra ainda maior de prosperidade”, afirmou, completando com o pedido para suas bases. “Votem em Fernandinho, mas votem no Galeguinho também. […] Vou rodar esse estado como se fosse eu sendo candidato a senador e a governador.”

O desconforto produzido pela nova composição também apareceu no discurso do ex-senador Fernando Bezerra Coelho. Ele começou reconhecendo que o grupo imaginava outro cenário para a abertura da campanha. “É óbvio que a gente tinha uma ideia diferente desse lançamento. O nosso coração e os nossos sonhos por um Pernambuco cada vez maior nos convocam e nos chamam para a luta”, afirmou.

Fernando Bezerra, que já acompanhou diferentes configurações eleitorais dos filhos ao longo de décadas, admitiu que nunca havia enfrentado uma situação como a atual. “Eu nunca esperava votar para estadual para um filho, votar para federal para um filho, eu estava sempre pronto. […] Mas votar em dois filhos para deputado federal, eu vou precisar da ajuda de vocês. Eu vou precisar muito da ajuda de vocês”, disse, E fez um pedido direto ao público: “Me ajudem, por favor. Deem Miguel, mas vocês votem Fernando Filho também, porque eu quero os dois. Eu quero os dois lá em Brasília, para que eles possam reforçar a presença política de Petrolina.”

Fernando Bezerra também abordou a disputa travada dentro da Federação União Progressista pelo Senado e reconheceu que houve divergência até a definição final. “A gente disputou dentro da federação com Eduardo da Fonte, mas Eduardo construiu uma grande força política em Pernambuco. Disputamos até o último instante, mas agora nós estamos somados, aliados”, declarou.

Ao mesmo tempo, FBC reafirmou sua preferência por Mendonça Filho para uma das vagas. “Fiz uma pequena divergência para poder trazer o senador do meu coração, porque ele devia viver esse momento. […] Mendonça é meu senador, é o senador do meu grupo, é o senador de Petrolina”, afirmou.

Eduardo da Fonte tratou justamente do processo de acomodação política que permitiu a união do grupo depois das semanas de disputa. “Hoje nós temos a maior federação partidária do Brasil e do estado de Pernambuco. E essa união só foi possível porque você, senador, abençoou. E porque meu amigo Miguel topou essa grande luta da Câmara Federal”, afirmou, dirigindo-se a Fernando Bezerra Coelho.

Dudu também procurou projetar a nova configuração como uma oportunidade de aumentar a representação do Sertão em Brasília. “Eu não tenho a menor dúvida, Antônio, eu não tenho a menor dúvida, Fernando Filho, que nós estaremos no Congresso Nacional defendendo Raquel Lyra, o estado de Pernambuco, juntos”, declarou. O candidato ao Senado mencionou ainda projetos defendidos pelo grupo para a região, entre eles a nova ligação entre Petrolina e Juazeiro e um hospital regional.

Raquel Lyra também falou diretamente sobre a situação vivenciada por Miguel e pela família. Sem tratar o episódio como ruptura, a governadora adotou um tom de acolhimento ao ex-prefeito. “Miguel, me dê licença pra entrar na sua casa. Dizer que esse povo que moldou vocês é um povo que me abraçou e me acolheu”, iniciou.

Depois, ao mencionar a mudança de planos de Miguel, adotou um tom consciliador. “Nada acontece por acaso. E eu acredito muito, como você disse, Miguel, que Deus sempre tem um propósito pra nossa vida. […] Eu não tenho dúvida nenhuma de que muitas alegrias ainda virão pela frente. De que o futuro reserva, Petrolina, e a você muitas coisas boas.” Raquel transformou a disputa simultânea dos irmãos em argumento político para o fortalecimento da representação federal do município. “Petrolina, que achou pouco ter um, agora vai ter dois deputados federais. A gente se divide pra se multiplicar.Eu não tenho dúvida nenhuma de que, no dia 4 de outubro, duas vagas de deputado federal já estão escolhidas e elas estão aqui”, disse.

Além de Miguel Coelho e Fernando Filho para a Câmara dos Deputados, o ato apresentou as demais candidaturas do grupo do União Brasil em Petrolina.

Na disputa pela Assembleia Legislativa, o deputado estadual Antônio Coelho busca a reeleição, enquanto o vereador Diogo Hoffmann entra na corrida por uma cadeira na Alepe. Rosi Soares também integra a chapa para deputada estadual.

Para a Câmara Federal, além dos dois irmãos Coelho, o grupo lançou Lucinha Mota, que durante o discurso destacou sua atuação com políticas públicas voltadas às mulheres e às crianças.

Antônio Coelho defendeu a manutenção de uma representação forte de Petrolina na Assembleia e disse que pretende fazer da campanha uma prestação de contas do mandato. “Eu tenho certeza que a nossa vitória, a vitória de Fernandinho e a vitória de Miguel será uma ponte para o futuro. Futuro de mais protagonismo, de mais voz e vez para que Petrolina possa crescer cada vez mais”, afirmou.

Diogo Hoffmann, por sua vez, apresentou sua candidatura como representante do eleitorado evangélico e conservador e defendeu que Petrolina tenha dois deputados estaduais ligados ao grupo. “O povo evangélico e o povo conservador de Petrolina me impulsionaram pra essa candidatura”, declarou.

Lucinha Mota enfatizou a própria trajetória fora das famílias tradicionais da política. “Esse grupo confiou em mim essa missão, uma mulher que não tem herança política, que não tem recursos financeiros, mas tem coragem pra lutar, pra brigar por justiça todos os dias”, afirmou.

Rosi Soares, candidata a deputada estadual, também destacou a própria trajetória como servidora pública e apresentou a valorização profissional como uma das bandeiras que pretende levar para a campanha. Em seu discurso, afirmou que decidiu ampliar a atuação política depois de buscar, inclusive em Brasília, apoio para demandas dos servidores municipais. “Nós estamos chegando lá e vamos chegar lá para que possamos valorizar todos os profissionais, não só de Petrolina, mas também do nosso Brasil”, declarou.

O prefeito Simão Durando, que anunciou ter sido convidado por Raquel Lyra para coordenar a campanha da governadora no Sertão do São Francisco, também adotou como argumento o aumento da representação política de Petrolina. “Imagina, Petrolina: nós já temos um deputado federal, Fernando Filho. Se com um já é bom, imagina com dois. Nós vamos ter mais força política”, disse.

Ao final, o palanque deste domingo deixou mais evidente o desenho produzido depois de uma das mais tensas articulações da pré-campanha pernambucana.