O agronegócio brasileiro chega ao segundo semestre de 2026 sob forte pressão por mudanças no modelo de financiamento da produção rural. Com a inadimplência em alta e um passivo que já ultrapassa R$ 800 bilhões, produtores e entidades do setor cobram do governo federal uma reformulação do Plano Safra 2026/2027, cuja divulgação está prevista para o fim de junho.
A avaliação de parte do setor é de que o desenho atual do crédito rural já não responde ao tamanho e à complexidade da agricultura brasileira. No ciclo 2025/2026, por exemplo, o governo anunciou R$ 516,2 bilhões para a agropecuária. Mas, na prática, o Tesouro Nacional conseguiu sustentar a equalização de juros — mecanismo que cobre a diferença entre a taxa de mercado e a taxa subsidiada paga pelo produtor — em apenas R$ 113,8 bilhões. Ou seja, uma parcela significativa do volume anunciado não chegou efetivamente ao campo nas condições esperadas pelos produtores.
Durante agenda em Petrolina, o ministro da Agricultura e Pecuária, André de Paula, reconheceu que o novo Plano Safra já está no centro das preocupações da pasta e afirmou que o governo trabalha há algum tempo na montagem do próximo pacote. “Esse é o próximo desafio. Aliás, não é o próximo. Nós já estamos trabalhando há algum tempo num novo plano safra, que deve ser anunciado agora no finalzinho de junho”, afirmou.
O ministro destacou que, nos últimos anos, os volumes anunciados pelo governo Lula cresceram de forma consecutiva. “O governo do presidente Lula, nos três primeiros planos safra, apresentou volumes muito consistentes, números que são muito expressivos. Ano após ano, esses números vêm se elevando”, disse.
Ainda assim, André de Paula sinalizou que o debate deste ano não ficará restrito ao tamanho do pacote. Segundo ele, a principal preocupação é fazer com que o crédito tenha custo compatível com a realidade do produtor. “Mais do que isso, as nossas preocupações estão também na questão dos juros, porque disponibilizar recursos é muito importante, sem dúvida, mas a gente precisa fazer com que esses recursos disponíveis caibam no bolso do produtor”, afirmou.
Na avaliação do ministro, o patamar atual das taxas compromete a efetividade do financiamento rural. “Com as taxas de juros praticadas hoje, isso termina por inviabilizar. Então a nossa luta era para que a gente possa ter juros compatíveis com essa capacidade que o produtor tem. Juros de um dígito, essa é a nossa luta”, declarou.
André de Paula também admitiu que o momento do agro é desafiador e citou fatores que vêm pressionando a atividade, como preço das commodities, endividamento acumulado e efeitos climáticos. Ao abordar o tema, mencionou inclusive uma observação feita pela senadora e ex-ministra da Agricultura, Tereza Cristina. “Ela disse: ‘André, você está chegando num momento em que a tempestade é perfeita’”, relatou. Em seguida, detalhou o cenário: “As commodities estão com preço baixo. Existe um endividamento histórico dos produtores no campo e a gente se enfrenta a isso. As questões climáticas se avolumam”.
Nesse contexto, o ministro defendeu que o novo Plano Safra também precisa avançar em instrumentos de proteção ao produtor, especialmente no seguro rural. “Portanto, é cada vez mais necessário trabalhar na questão de um seguro rural”, afirmou.
Mesmo diante do quadro de aperto financeiro no campo, André de Paula procurou passar uma mensagem de confiança na capacidade de reação do setor. “É impressionante que, por maiores que sejam esses desafios, maior ainda é a capacidade que o brasileiro tem, a força que o nosso agro tem”, disse.
Ao citar a recente missão oficial à China, o ministro afirmou que a percepção externa sobre o agro brasileiro segue positiva, impulsionada pela qualidade dos produtos e pela força produtiva do país. “A gente percebe a importância que nós temos, que eles têm para nós, que são o nosso maior mercado. Isso decorre de que nós temos um agro pungente, com produtos de muito boa qualidade, que são admirados no mundo inteiro”, declarou.



