Após reunião com Raquel Lyra, Miguel Coelho retira candidatura ao Senado e mantém apoio à governadora

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Ex-prefeito atribuiu o recuo a “forças maiores”, pediu que aliados permaneçam no palanque governista e não declarou apoio nominal a Eduardo da Fonte ou Túlio Gadêlha

O ex-prefeito de Petrolina Miguel Coelho (União Brasil) anunciou, na madrugada deste sábado (1º), a retirada de sua candidatura ao Senado por Pernambuco. A decisão foi comunicada após uma reunião com a governadora Raquel Lyra (PSD), no Palácio do Campo das Princesas, no Recife.

Miguel publicou o pronunciamento em seu perfil no Instagram por volta de 1h, poucas horas antes da convenção estadual do União Brasil, marcada para as 10h e inicialmente organizada para homologar seu nome na disputa pelo Senado.

“Acabei de sair de uma reunião com a governadora Raquel Lyra e, de forma muito transparente e direta, quero trazer essa mensagem para vocês”, iniciou.

O presidente estadual do União Brasil afirmou que ele e Raquel chegaram ao entendimento de que a candidatura deveria ser retirada para evitar riscos ao projeto de reeleição da governadora.

“Para não colocar esse projeto em risco, sob nenhum tipo de condição, ameaça ou qualquer forma de pressão, percebemos — e eu e ela chegamos a isso de bom tom, numa conversa muito tranquila — que era o momento de retirar a nossa candidatura ao Senado”, declarou.

O anúncio encerra uma disputa que se estendeu por meses entre Miguel e o deputado federal Eduardo da Fonte (PP) pela indicação da Federação União Progressista, formada pelo União Brasil e pelo Progressistas, para uma das vagas ao Senado no palanque de Raquel.

Segundo informações repassadas ao NV, a governadora comunicou a Miguel que Eduardo da Fonte ocupará a segunda vaga da chapa governista. A primeira estaria reservada ao deputado federal Túlio Gadêlha, filiado ao PSD. Os nomes ainda dependem das decisões formais das convenções partidárias e da federação.

União Brasil continua com Raquel

Apesar da retirada, Miguel deixou claro que o União Brasil permanecerá na base da governadora. Ele também pediu que prefeitos, deputados, candidatos, vereadores e demais lideranças ligadas ao seu grupo mantenham o apoio à reeleição de Raquel.

“União Brasil vai continuar apoiando a governadora Raquel Lyra. Peço aos prefeitos, deputados, candidatos, vereadores, lideranças e a todos que conhecem o meu trabalho que continuem apoiando Raquel e levem essa mensagem para todos os cantos de Pernambuco”, afirmou.

A permanência do partido no palanque evita, ao menos neste primeiro momento, uma ruptura entre o grupo dos Coelho e a governadora. O União Brasil oficializou a aliança com Raquel em março, quando Miguel também apresentou sua pré-candidatura ao Senado como parte da composição.

“Não era o desfecho que eu queria”

Embora tenha apresentado a decisão como um gesto em defesa de um projeto coletivo, Miguel reconheceu que o resultado não correspondia ao que pretendia para a eleição.

“Infelizmente, não vai dar. Neste ano de 2026, não vamos colocar o nosso nome à disposição por questões de forças maiores”, disse.

Mais adiante, voltou a demonstrar frustração. “Não era o desfecho que eu queria, vocês sabem. Mas, de novo, não é sobre o eu. É sobre um projeto maior e um projeto para o bem de Pernambuco.”

Miguel agradeceu à família e aos apoiadores que participaram da pré-campanha e classificou seu projeto como eleitoralmente competitivo. “Todos que me conhecem sabem do meu trabalho, sabem da minha história e torceram muito, ajudaram muito para que a gente pudesse chegar até aqui, mostrando uma candidatura viável, competitiva”, declarou.

Um recuo após meses de resistência

A retirada representa uma mudança significativa em relação ao discurso adotado por Miguel nos últimos meses.

Em junho, o ex-prefeito afirmou publicamente que não abriria mão da disputa e admitiu até uma candidatura avulsa, caso não houvesse consenso dentro da Federação União Progressista. Na ocasião, disse que concorreria “nem que o União vá avulso” e descartou a possibilidade de disputar outro cargo em 2026.

Após a Executiva estadual da federação indicar Eduardo da Fonte por cinco votos e duas abstenções, Miguel contestou o resultado e sustentou que a decisão precisaria ser validada pela direção nacional. Ele voltou às redes sociais para afirmar que sua candidatura estava mantida e classificou as especulações sobre uma desistência como “papo furado”.

Já em 23 de julho, Miguel declarou que Raquel continuava comprometida com seu projeto e afirmou ter aceitado a alternativa de três candidaturas avulsas ao Senado: a dele, a de Eduardo da Fonte e a de Túlio Gadêlha. A proposta não obteve consenso no PP.

A solução anunciada na madrugada deste sábado eliminou a hipótese das três candidaturas dentro da base e abriu caminho para uma composição entre Túlio e Eduardo.

O que o discurso de Miguel revela

O pronunciamento reforça a narrativa de um sacrifício em nome da unidade do grupo governista. Ao repetir expressões como “projeto prioritário”, “projeto maior” e “não colocar esse projeto em risco”, Miguel desloca o centro da narrativa de sua candidatura para a reeleição de Raquel. Com isso, tenta preservar a aliança e justificar aos seus apoiadores uma decisão que contraria todo o discurso sustentado durante a pré-campanha.

Ao mesmo tempo, as referências a “ameaça”, “pressão” e “forças maiores” indicam que o recuo não ocorreu por falta de interesse ou por uma avaliação espontânea de inviabilidade eleitoral.

A frase “eu e ela chegamos a isso de bom tom” cumpre outra função: apresentar a decisão como consensual e preservar a relação pessoal com Raquel, afastando a imagem de que teria sido simplesmente excluído pela governadora.

Há, porém, um silêncio relevante. Miguel reafirmou várias vezes o apoio a Raquel, mas não mencionou Eduardo da Fonte nem Túlio Gadêlha e tampouco pediu votos para os candidatos ao Senado que poderão substituí-lo na chapa.

Em vez disso, desejou genericamente que Pernambuco tenha senadores que “honrem as tradições de força, fé, luta e garra” do estado. A ausência de apoio nominal permite que ele mantenha o compromisso com a candidatura de Raquel sem se vincular imediatamente à dupla que deverá concorrer ao Senado.

Identidade sertaneja e sinal de continuidade

Na parte final do pronunciamento, Miguel retomou a identidade política construída em Petrolina e no Sertão para comunicar que não pretende deixar a vida pública.

“O Galeguinho continua aqui, de cabeça erguida, firme, continuando o propósito de trabalhar por Pernambuco, de ajudar o nosso povo, de fazer o nosso Sertão e a nossa Petrolina cada vez mais fortes”, afirmou.

A escolha da expressão “até a próxima” também mantém aberta a perspectiva de novos projetos eleitorais. Ao contrário de um discurso de encerramento de trajetória, Miguel procura transmitir que a retirada vale apenas para a disputa de 2026.

O ex-prefeito já disputou o Governo de Pernambuco em 2022, quando recebeu 884.941 votos, equivalentes a 18,04% dos votos válidos. Após ficar fora do segundo turno, declarou apoio a Raquel Lyra contra Marília Arraes.

Quatro anos depois, volta a abrir mão de uma disputa majoritária para apoiar a governadora. Desta vez, porém, a retirada ocorre antes das urnas e depois de uma pré-campanha marcada por viagens, articulações partidárias e sucessivas declarações de que sua candidatura seria mantida.