Após desistência de Miguel, Eduardo da Fonte publica frevo sobre tradição, injustiça e resistência

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Sem citar o ex-prefeito ou a disputa pelo Senado, deputado escolheu “Madeira que Cupim Não Rói” para embalar publicação feita horas depois da retirada da candidatura do União Brasil

Poucas horas após Miguel Coelho (União Brasil) anunciar a retirada de sua candidatura ao Senado, o deputado federal Eduardo da Fonte (PP) publicou, na manhã deste sábado (1º), uma sequência de imagens carregada de símbolos políticos.

A postagem foi feita ao som de “Madeira que Cupim Não Rói”, clássico frevo de bloco composto por Capiba para o Madeira do Rosarinho. Nas três fotografias, Eduardo aparece envolvido por símbolos da cultura pernambucana, acompanhado de trechos da composição que remetem à defesa da tradição, à dor provocada pela injustiça e à resistência.

Na legenda, o deputado afirma que a tradição continua viva, a cultura permanece forte e o orgulho de ser pernambucano segue de pé. A publicação termina com uma homenagem às pessoas que preservam essa história.

Eduardo não menciona Miguel Coelho, a governadora Raquel Lyra (PSD), a disputa pelo Senado ou as negociações realizadas durante a madrugada. O momento escolhido e o conteúdo da postagem, no entanto, permitem uma leitura política diante do desfecho da queda de braço dentro da Federação União Progressista.

As imagens falam por etapas

Na primeira fotografia, Eduardo aparece com a bandeira de Pernambuco sobre os ombros e a mensagem de defesa da tradição. A imagem procura vinculá-lo à identidade histórica e cultural do estado, apresentando-o como alguém que representa valores permanentes.

Na segunda, o deputado abraça uma mulher enquanto aparece a referência de que “a injustiça dói”. Dentro do contexto político deste sábado, esse é o trecho mais sensível da publicação. Ainda que não exista uma acusação direta, a escolha da frase introduz uma narrativa de enfrentamento a uma decisão considerada injusta.

A terceira imagem encerra a sequência com Eduardo diante de vaqueiros, usando novamente a bandeira de Pernambuco, enquanto a composição evoca a força da “madeira de lei”. O efeito é de resistência: alguém que teria suportado pressões, disputas e tentativas de retirada, mas permaneceu de pé.

A própria música nasceu como uma manifestação de protesto. Composta por Capiba em 1963, ela reagia ao resultado de um concurso de blocos vencido pelo Batutas de São José, em detrimento do Madeira do Rosarinho. Por isso, a obra tornou-se um símbolo de inconformismo, orgulho e resistência diante de um julgamento contestado.

Uma resposta sem declarar vitória

A publicação não assume o tom convencional de uma comemoração. Eduardo não agradece pela escolha, não se apresenta como candidato ao Senado e não anuncia oficialmente uma composição com Raquel Lyra.

Em lugar de uma celebração explícita, ele utiliza uma linguagem cultural para sugerir que resistiu e preservou seu espaço. A ausência de qualquer referência nominal permite que o deputado envie uma mensagem política sem transformar o episódio em provocação aberta contra Miguel Coelho.

Essa cautela é particularmente importante porque PP e União Brasil integram a mesma federação e continuarão juridicamente vinculados durante a eleição. Mesmo depois da desistência de Miguel, Eduardo ainda precisa administrar a relação com dirigentes, candidatos e bases eleitorais do União Brasil.

O ex-prefeito de Petrolina, ao anunciar o recuo, pediu que seus aliados mantivessem o apoio à reeleição de Raquel, mas não declarou apoio nominal a Eduardo da Fonte. A postagem do deputado segue uma lógica semelhante: comunica força, mas não menciona diretamente o antigo adversário.

Disputa se estendeu por meses

Eduardo e Miguel travaram durante meses uma disputa pela indicação da Federação União Progressista à segunda vaga ao Senado no palanque governista. A primeira vinha sendo atribuída ao deputado Túlio Gadêlha, do PSD.

A Executiva estadual da federação havia aprovado o nome de Eduardo por cinco votos e duas abstenções, mas o resultado foi contestado pelo União Brasil, que defendia a necessidade de consenso entre as direções das duas legendas.

Miguel manteve sua candidatura, promoveu agendas pelo estado e sustentou publicamente que Raquel continuava comprometida com seu projeto. A governadora chegou a apresentar a possibilidade de três candidaturas avulsas — Miguel, Eduardo e Túlio —, mas a proposta não solucionou o impasse.

O desfecho ocorreu na madrugada deste sábado, quando Miguel deixou uma reunião com Raquel Lyra e anunciou que não concorreria ao Senado. Ele justificou a decisão pela necessidade de preservar o projeto de reeleição da governadora e afirmou que havia cedido diante de “forças maiores”.

A retirada deixa Eduardo como o nome remanescente da federação para disputar a vaga na chapa governista. O PP realiza sua convenção estadual neste sábado, das 11h às 17h, no Recife. A decisão definitiva da União Progressista, porém, deverá ser formalizada na convenção da federação, marcada para 5 de agosto.