Assentamento Soberania Popular está em fase de estruturação e busca acesso à tecnologias com foco na agroindústria

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O dirigente e coordenador nacional do Movimento de Trabalhadores Sem Terra (MTST), Florisvaldo Araújo, em entrevista ao programa Nossa Voz desta terça-feira (21). Crédito: Reprodução/YouTube Grande Rio FM

Em entrevista ao programa Nossa Voz desta terça-feira (21), o dirigente e coordenador nacional do MST, Florisvaldo Araújo, falou sobre o estágio atual da implantação do assentamento Soberania Popular, entre Petrolina e Lagoa Grande, e os desafios do processo de produção alimentar que deixa de ser de subsistência para adquirir potência de comercialização e competitividade de mercado na agroindústria

A implantação do assentamento Soberania Popular, projeto localizado às margens da BR-428, entre Petrolina e Lagoa Grande, entra agora em uma etapa decisiva de estruturação, após a formalização do acesso ao espaço por famílias assentadas. Criado, oficialmente, em agosto de 2025, o assentamento possui 600 hectares e a capacidade para receber 100 famílias.

Para falar aqui sobre o estágio atual do Soberania Popular, os investimentos necessários e os próximos desafios da reforma agrária no Sertão, o programa Nossa Voz desta terça-feira (21), recebeu o dirigente e coordenador nacional do Movimento de Trabalhadores Sem Terra (MTST), Florisvaldo Araújo.

De acordo com o dirigente, as famílias assentadas do Soberania Popular estão devidamente formalizadas, com Contrato de Concessão de Uso (CCU) em mãos, e já receberam recursos do Governo Federal para a construção de suas casas.

“A conquista dessa área é muito importante aqui no município de Petrolina, a criação do nosso assentamento de Soberania Popular. Agora, vem o processo de estruturação do assentamento. As 100 famílias estão acessando, agora, em torno de 100 milhões de reais. São recursos já com contrato assinado, apoio inicial, com 8 mil reais para cada família. Temos mais apoio com fomento de mais 16 mil reais que é o recurso para construção das habitações”, informou.

Florisvaldo Araújo explicou que as casas são projetadas para a garantia de moradia digna, com estrutura de três quartos, com forro, cerâmica, banheiro com chuveiro elétrico e possibilidade de instalação de energia solar. “É uma casa com todas as condições que a gente sempre sonhou”, disse Florisvaldo.

Além disso, ele informou que há a previsão da construção de uma escola de nível médio no assentamento ainda para este ano. “Nós já temos uma possibilidade de iniciar ainda esse ano a construção de uma escola de nível médio que é muito importante”.

Lagoa Grande receberá novas áreas para famílias que não foram contempladas na primeira etapa

Florisvaldo Araújo informou que as famílias que não foram contempladas na primeira etapa de seleção terão a oportunidade de participarem de um novo processo seletivo dentro do Programa Nacional de Crédito Fundiário, do Governo Federal. Segundo ele, foram adquiridos, no município de Lagoa Grande mais de 2 mil hectares de terras para assentar o restante das famílias.

“Todas as famílias que não foram assentadas nesse primeiro momento, serão assentadas a partir do crédito fundiário. Existe um compromisso do Governo Federal, a partir do MDA e do INCRA, de assentar todas as famílias que, nesse primeiro momento, não foram atendidas”, informou.

De acordo com o dirigente, cada família acessa em torno de 300 mil reais. “50% desse valor é para pagamento da terra e 50% do valor é para infraestrutura. Então em Lagoa Grande nós nós estamos adquirindo duas áreas importantes que com certeza vai poder eh contemplar o restante dessas famílias”, disse Araújo.

Início do processo de produção de alimentos

O dirigente do MTST disse que o assentamento agora inicia o processo de produção de alimentos com a demarcação de áreas específicas para o cultivo e construção da agrovila, com infraestrutura básica coletiva.

“Já existe um mapa produtivo, uma análise de solo pedológico. Então, as famílias já identificaram onde será realizada a parte produtiva, onde ficará ali separada a parte de reserva ambiental, a área coletiva, onde vai construir escola, onde vai construir agrovila”.

De acordo com Florisvaldo Araújo, está sendo construída uma adutora de captação de água que transformará a área de sequeiro do assentamento em área de irrigação, o que segundo ele, abarcará uma estrutura histórica no Vale do são Francisco.

“As famílias estão, com esse recurso do Crédito Semiárido, em torno de 1 milhão, construindo uma adutora que faz a captação da água no Rio São Francisco, através do assentamento de São José do Vale, José e Samuel, que são ali próximos, até chegar na BR. Então, uma área que tinha praticamente todas as características de sequeiro, agora passa a ser uma área irrigada. Então, a gente vai, com certeza, ter uma estrutura histórica aqui na região do Vale do São Francisco”.

Acesso à tecnologia e competitividade na agroindústria

Florisvaldo Araújo relembrou sobre o apoio recebido pela Embrapa Semiárido e a Codevasf no processo de formalização da área assentada, junto ao Governo Federal, e às gestões municipais e demarcou que o Soberania Popular busca ser um assentamento modelo, com tecnologia produtiva e competividade no mercado da agroindústria.

“A gente chegou numa decisão histórica, muito importante, da gente ter ali 100 famílias, num assentamento que pode ser, com certeza, assim, uma grande marca. Nós estamos pensando num assentamento modelo, com novas tecnologias. Com cuidado com o ambiente, mas com muita produção, de a gente pensar comercialização, pensar na agroindústria”, disse.

Segundo o dirigente do MTST, o assentamento Soberania Popular deixa de adotar um modelo de subsistência para acessar o mercado nacional e até internacional, com previsão de parceria com a China para o acesso à equipamentos de produção, pois, de acordo com ele, não dá mais para se pensar em desenvolvimento nos assentamentos apenas com o uso da enxada.

“Não dá para a gente pensar o desenvolvimento dos assentamentos ainda com a enxada. Então, nós estamos a nível internacional pensando numa parceria com a China para produção de pequenos equipamentos, de microestratores, de outros equipamentos importantes para a gente poder cada vez mais ter acesso a essas tecnologias”, disse.

Florisvaldo Araújo destacou que a busca não é só pelo aumento da produtividade, mas pela garantia da produção de um alimento saudável que possa chegar à mesa do consumidor.

“A gente aumenta a produtividade e que essa produtividade, ela tenha a qualidade, a qualidade que está numa alimentação saudável, mas para além disso a gente poder fazer com que essa produção ela chegue diretamente ao consumidor (…) A gente tem dialogado isso com o governo, nosso assentamento, a gente não pode mais pensar como subsistência. Nosso assentamento deixou de ser um potencial e passa a ser uma potência de produção e a gente precisa organizar essa produção”.