Especialista defende autoconhecimento e governança de longo prazo para fortalecer ecossistema de inovação no Vale do São Francisco

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Foto: Reprodução

Em entrevista ao programa Nossa Voz desta sexta-feira (21), o especialista em liderança colaborativa, Pedro Mello, destacou sobre a construção de planos de Estado, com objetivos de longo prazo compartilhados por diferentes setores e grupos políticos, em vez de projetos vinculados exclusivamente a determinados governos

O fortalecimento de um ecossistema de inovação depende não apenas da aproximação entre universidades, empresas, poder público e instituições de pesquisa, mas também da capacidade de criar relações de confiança, colaboração e planejamento de longo prazo. A avaliação é de Pedro Mello, especialista em liderança colaborativa, mobilização de atores e desenvolvimento de ecossistemas inovadores, que participou como convidado da programação do ELI Summit Pernambuco, realizado nesta semana em Petrolina.

Durante entrevista ao programa Nossa Voz desta sexta-feira (21), Mello destacou que a maturidade de um ecossistema pode ser percebida pela quantidade de atores envolvidos, pelas iniciativas desenvolvidas em conjunto, pelo surgimento de startups e pelo volume de investimentos destinados a empresas inovadoras.

Para ele, porém, mais importante do que medir o estágio atual de uma cidade é criar condições para que diferentes setores consigam se conectar de maneira mais profunda.

“O mais importante é as pessoas se conectarem mesmo e perceberem que somos muito mais parecidos do que diferentes”, afirmou o especialista.

Autoconhecimento como base para a colaboração

Um dos principais temas defendidos pelo especialista durante o evento foi o desenvolvimento emocional e o autoconhecimento como ferramentas para melhorar a capacidade de colaboração.

Segundo Pedro Mello, estruturas organizacionais ainda são frequentemente baseadas em uma lógica de medo, proteção, comando e controle. Para romper esse modelo, seria necessário desenvolver maior consciência individual e capacidade de compreender o outro.

Na avaliação dele, quanto maior o conhecimento que uma pessoa tem sobre si mesma, maior a possibilidade de desenvolver empatia, confiança e relações colaborativas.

“Quanto mais eu me conheço, mais eu consigo entender o outro, ter empatia, compaixão e aí a confiança nasce e as boas relações acontecem”, disse.

Novos modelos de gestão

O especialista também chamou atenção para modelos empresariais que adotam estruturas mais descentralizadas e autogeridas. Segundo ele, existem organizações de diferentes tamanhos que trabalham com distribuição de autoridade, clareza de responsabilidades e menor concentração de poder.

A proposta, segundo ele, é superar modelos baseados exclusivamente no comando e controle e criar ambientes nos quais as pessoas tenham maior autonomia para participar das decisões.

Durante o ELI Summit, uma das atividades realizadas em Petrolina reuniu diferentes atores para trabalhar planejamento e estratégias de forma conjunta.

Vale do São Francisco tem condições para avançar

Ao abordar especificamente o Vale do São Francisco, Pedro Mello destacou a combinação existente no território entre produção agrícola, universidades, instituições de pesquisa, empresas e organizações de apoio ao empreendedorismo.

Para ele, essa estrutura oferece condições para o desenvolvimento de soluções tecnológicas capazes de ultrapassar as fronteiras regionais.

O especialista voltou a defender que a colaboração entre os diferentes atores precisa ser fortalecida para que o conhecimento produzido no território possa resultar em novas empresas, tecnologias e soluções com capacidade de escala.

Cidades podem se organizar em torno de cadeias produtivas

Pedro Melo também citou exemplos internacionais de cidades que desenvolveram ecossistemas especializados em determinadas cadeias produtivas.

Segundo ele, há municípios que concentram centenas ou milhares de empresas atuando de maneira integrada, formando grandes cadeias produtivas e utilizando a tecnologia e a conectividade para alcançar mercados internacionais.

Na avaliação do especialista, esse tipo de organização pode apontar caminhos para que territórios desenvolvam vocações econômicas específicas e aumentem sua competitividade.

Mudança não depende apenas de grandes investimentos

Questionado sobre qual mudança de comportamento poderia acelerar o ecossistema de inovação do Vale do São Francisco, Pedro Mello afirmou que o principal recurso necessário seria a disposição das pessoas para construir relações e desenvolver capacidades emocionais.

Ele relatou experiências vivenciadas durante o evento nas quais participantes tiveram espaço para falar sobre sentimentos e vulnerabilidades.

Para ele, a criação de ambientes de confiança e cuidado humano pode gerar novas possibilidades de colaboração entre lideranças e instituições.

“Quando a gente começa a criar esses espaços e nutrir esses espaços de cuidado humano, a gente abre um campo de possibilidades inimagináveis”, destacou.

Planejamento de longo prazo para além dos governos

Outro ponto abordado na entrevista foi a necessidade de construir uma governança territorial que permaneça mesmo diante da mudança de prefeitos, governadores, dirigentes empresariais e reitores.

Pedro Mello defendeu a construção de planos de Estado, com objetivos de longo prazo compartilhados por diferentes setores e grupos políticos, em vez de projetos vinculados exclusivamente a determinados governos.

Segundo ele, a descontinuidade de projetos a cada mudança de gestão pode provocar perda de tempo, recursos e estabilidade.

“O plano de Estado como sendo superior ao plano de governo” seria, na avaliação do especialista, uma forma de garantir maior continuidade às estratégias de desenvolvimento.

Inovação como construção coletiva

Ao final da entrevista, Pedro Mello reforçou que a construção de um ecossistema inovador passa pela capacidade de diferentes atores trabalharem juntos, compartilharem uma visão de futuro e desenvolverem novas formas de relacionamento e gestão.

Para ele, inovação não depende apenas de tecnologia ou investimentos, mas também de confiança, colaboração, desenvolvimento humano e planejamento de longo prazo — elementos que, segundo o especialista, podem ajudar o Vale do São Francisco a transformar suas potencialidades em projetos capazes de gerar impacto além da região.