Impasse entre Miguel Coelho e Eduardo da Fonte coloca Raquel Lyra no centro da disputa pela União Progressista

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A disputa entre o ex-prefeito de Petrolina Miguel Coelho (União Brasil) e o deputado federal Eduardo da Fonte (PP) por uma vaga ao Senado na chapa governista deixou de ser apenas uma concorrência entre duas pré-candidaturas. Nos bastidores, o impasse passou a envolver o controle político da Federação União Progressista em Pernambuco, a unidade da base da governadora Raquel Lyra (PSD) e a sobrevivência eleitoral das chapas proporcionais para a Câmara Federal e a Assembleia Legislativa.

Miguel e Eduardo comandam estruturas relevantes dentro da federação. O grupo de Eduardo da Fonte argumenta que o PP possui maior número de prefeitos, deputados e lideranças no estado, além de ter aprovado internamente o nome do parlamentar para o Senado. Miguel, por outro lado, sustenta que nenhuma das legendas pode impor isoladamente uma decisão e aposta na relação construída com Raquel Lyra desde que migrou para a base governista.

O conflito envolve também o futuro comando da União Progressista em Pernambuco. Segundo análise publicada pelo Jamildo.com, existe entre aliados a preocupação de que uma eventual eleição de Miguel Coelho para o Senado altere a correlação de forças internas da federação, uma vez que senadores costumam ganhar prioridade e maior peso político na condução partidária. Nesse cenário, a resistência de Eduardo da Fonte não estaria relacionada apenas à vaga na chapa, mas à preservação de sua liderança sobre a estrutura partidária estadual.

A União Progressista reúne nacionalmente o Progressistas e o União Brasil. Pela legislação eleitoral, uma federação atua como se fosse uma única agremiação, tanto nas eleições majoritárias quanto nas proporcionais. Isso reduz a possibilidade de uma solução em que Miguel ou Eduardo concorra isoladamente, sem uma decisão conjunta ou sem a autorização das instâncias competentes da federação.

Decisão estadual não encerrou disputa

No fim de junho, a direção estadual aprovou o nome de Eduardo da Fonte para o Senado. O encaminhamento, porém, não encerrou a discussão. O presidente nacional do União Brasil, Antônio Rueda, afirmou que uma deliberação estadual sem unanimidade entre PP e União Brasil não produziria efeito perante a Executiva Nacional da federação.

“Qualquer encaminhamento adotado em âmbito local, que não seja unânime entre as duas legendas, não produzirá nenhum efeito perante a Executiva Nacional da Federação União Progressista, a quem cabe decidir”, registrou Rueda em manifestação divulgada na ocasião.

Especialistas em direito eleitoral também avaliaram que a escolha estadual tem caráter interno e ainda precisa ser confirmada durante as convenções. Caso PP e União Brasil apresentem decisões divergentes, o estatuto da federação prevê que o impasse seja submetido à direção nacional.

Com isso, a briga deve atravessar o período das convenções partidárias, marcado entre 20 de julho e 5 de agosto. Até lá, Miguel Coelho e Eduardo da Fonte continuam como pré-candidatos, já que os nomes que efetivamente disputarão as eleições somente serão oficializados pelas legendas e federações.

Raquel entre a preferência e a necessidade de unidade

Raquel Lyra ocupa uma posição decisiva nesse xadrez. A governadora precisa montar uma chapa competitiva para o Senado, mas também necessita preservar o apoio de uma federação que reúne estrutura partidária, candidaturas proporcionais, prefeitos, parlamentares, recursos eleitorais e tempo de propaganda.

Relatos de bastidores apontaram que Raquel teria comunicado à direção nacional sua preferência por Miguel Coelho, alegando compromisso e lealdade do grupo do ex-prefeito de Petrolina desde a aproximação com o governo. A mesma versão indicou que a governadora teria oferecido anteriormente espaço a Eduardo da Fonte, mas ficou insegura diante das conversas mantidas pelo PP com o grupo do pré-candidato ao Governo do Estado João Campos. Essa versão, no entanto, não foi formalmente confirmada pela governadora.

Outras informações publicadas nos últimos dias apontam que, após novas reuniões, Raquel decidiu transferir a responsabilidade da escolha para os presidentes nacionais Ciro Nogueira, do PP, e Antônio Rueda, do União Brasil. A governadora teria pedido apenas que a federação apresente rapidamente uma solução, evitando que a indefinição comprometa a montagem da chapa governista.

Na prática, Raquel precisa escolher entre riscos políticos diferentes. A preferência por Miguel pode fortalecer sua presença no Sertão e preservar a aliança construída com o grupo Coelho, mas corre o risco de desagradar o PP e Eduardo da Fonte, que comandam uma estrutura partidária maior no estado.

Uma escolha por Eduardo, por outro lado, atenderia à maioria interna da federação e ao grupo que controla sua direção estadual, mas poderia provocar o afastamento de Miguel e de aliados que aderiram ao projeto de reeleição da governadora esperando espaço na chapa majoritária.

Ruptura atingiria candidaturas proporcionais

O problema não se limita à eleição para o Senado. Um rompimento entre os dois grupos poderia afetar a organização das candidaturas a deputado federal e estadual, a distribuição dos recursos eleitorais e a participação da federação na coligação governista.

Como PP e União Brasil precisam atuar conjuntamente, uma disputa prolongada pode comprometer acordos regionais, palanques municipais e a estratégia para eleger bancadas na Câmara dos Deputados e na Assembleia Legislativa. A perda do apoio formal da federação também reduziria o tempo de propaganda disponível para a chapa de Raquel Lyra.

Por isso, ganhou força nos bastidores a hipótese de uma saída em que Miguel Coelho e Eduardo da Fonte desistiriam do Senado e indicariam um terceiro nome de consenso. A alternativa preservaria a federação, mas exigiria compensações políticas para acomodar os dois grupos em outros espaços da chapa majoritária, nas candidaturas proporcionais ou em futuros compromissos partidários. Até o momento, essa possibilidade permanece apenas no campo das negociações.

Eduardo faz gesto a Lula

Em meio às articulações, Eduardo da Fonte fez um aceno ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva ao elogiar uma proposta do Governo Federal para ampliar o limite de faturamento dos microempreendedores individuais. O gesto foi interpretado no meio político como uma tentativa de apresentar o PP como uma ponte entre Raquel e o eleitorado lulista em Pernambuco.

A movimentação interessa à governadora, que busca manter diálogo com setores ligados a Lula, mesmo enfrentando João Campos, apoiado formalmente pelo PT estadual. Uma chapa com nomes capazes de circular em diferentes campos políticos poderia ampliar a margem de articulação de Raquel durante a campanha.

Definição deve chegar às convenções

Apesar das sucessivas reuniões e versões divulgadas pelos bastidores, não existe ainda uma definição oficial sobre qual nome da União Progressista ocupará uma vaga na chapa de Raquel Lyra. Eduardo da Fonte mantém sua pré-candidatura e o controle estadual da federação. Miguel Coelho continua defendendo seu projeto para o Senado e aposta na preferência da governadora e no respaldo da direção nacional do União Brasil.

Raquel, por sua vez, tenta evitar que a escolha de um aliado provoque a perda do outro. O desafio da governadora não é apenas completar a chapa, mas impedir que uma disputa pelo Senado desorganize uma das maiores forças partidárias de sua base e produza consequências para toda a eleição proporcional.

A decisão deverá passar pelas convenções e, caso PP e União Brasil não alcancem um consenso em Pernambuco, poderá ser tomada pela direção nacional da União Progressista. Até lá, o impasse continuará testando a capacidade de articulação de Raquel Lyra e o limite da convivência política entre Miguel Coelho e Eduardo da Fonte.